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Antônio Everton Chaves de Lima

1970 - 2020

Urêa, torcedor apaixonado pelo Fortaleza, gostava de fazer todo mundo rir.

Às 11h, não há mais ninguém para destampar as panelas no fogão e perguntar o que vai ter para comer. Como motorista de ônibus, Everton deixou saudades em muitos passageiros porque era brincalhão e irreverente, além de que, precisava viajar ouvindo Roberto Carlos, o seu Rei.

Mas, por aqui, não vamos mais chamá-lo pelo nome de batismo. É que, por conta das brincadeiras que tirava constantemente, uma se destacou e virou marca. Ele era acostumado a chamar todo mundo de “urêa seca”, para zoar e demonstrar carinho. Com os anos, passou a ser conhecido somente como Urêa e gostava tanto, que talvez tivesse oficializado o nome.

Pai de dois filhos, Everton Filho e Taís, Urêa estava à beira de se tornar avô pela primeira vez. Ao pensar no neto, entretanto, tinha uma grande preocupação: não poderia, de jeito nenhum, ser chamado de “vovô”. É que ele era torcedor do Fortaleza Sport Club, daqueles apaixonados e aficionados, e “vovô” é o nome do mascote do time rival — que, neste texto, nem deve ser mencionado.

Só que o problema foi contornado com facilidade e, segundo ele, ainda seria motivo para o neto torcer para o Fortaleza. Bastava chamá-lo de “vovó”, simples assim.

Esse é um exemplo do humor que tirava risadas de todos. Urêa era muito prestativo, tinha um coração enorme, sempre foi muito bondoso. Apesar da covid-19 e de não conhecer o neto, ele não se rendeu às lamúrias. Era guerreiro demais para isso. A todo mundo, só disse a frase que lhe regia a vida:

“Vai ficar tudo bem.”

Antônio nasceu em Fortaleza (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 49 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela prima de Antônio, Diana Moreira. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Josué Seixas, revisado por Lígia Franzin e moderado por Edson Pavoni em 13 de maio de 2020.