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Antônio Joaquim Dias

1936 - 2020

Um homem de coração grandioso e com fé inabalável em Deus.

Há quem diga que se vive duas vezes: a primeira quando nascemos; a segunda, onde escolhemos viver.

Antônio Joaquim renasceu na cidade de Niquelândia, Goiás, onde chegou de sua cidade natal Simão Dias, Sergipe, e foi acolhido pelos pais de Janicelhe, na fazenda de sua mãe. Lá, encontrou um trabalho e uma família.

Encantou-se por Janicelhe quando ela nasceu, e pediu aos pais para batizá-la. Padrinho amoroso e respeitoso, acompanhou sua família até o fim da vida.

Quando a afilhada tinha três anos, seu pai faleceu. Com a sua mãe e seus seis irmãos, a menina foi morar na cidade, acompanhada de Antônio, que viveu próximo da casa de sua família.

No centro da cidade, ele abriu uma mercearia chamada Casa Sergipana. O nome, inspirado em sua origem, logo fez nascer também o apelido carinhoso que ressoava pelas bocas de todos da cidade: seu Sergipe – foi assim que ficou conhecido.

Figura popular muito querida na cidade, Sergipe era um homem de caráter sem igual. Respeitoso, benevolente e com fé inabalável na vida.

Não faltava um dia sequer de seu compromisso sagrado: ir à missa. Lá, onde encontrava a sua força divina para seguir adiante, Antônio fazia o possível para contribuir com o dízimo e doações em todas as novenas da igreja.

Homem batalhador que, apesar das adversidades da vida, tinha um coração grandioso.

Quem entrava na Casa Sergipana saía dali com um tanto da fé que ele compartilhava:

"Bom dia Sergipe. Como estão as coisas?"

"Tá difícil, mas se Deus quiser, vai melhorar!", respondia ele.

O sonho dele era reformar a Casa Sergipana. Seu carisma, que conquistou toda cidade, inspirou a população a juntar dinheiro para trocar os telhados de sua mercearia, que também era seu lar.

Infelizmente, Sergipe não viveu o suficiente para aproveitar este grande presente.

Apesar da saudade que sua partida deixa para todos que cruzaram seu caminho, é certo que cada um terá guardado no coração sua memória mais especial com ele, assim como Janicelhe.

"Benção, padrinho", ela dizia.

"Deus te abençoe", era como o padrinho a agraciava.

Esse era o momento mais especial que sua afilhada encontrava, todos os dias, ao passar na mercearia para vê-lo e ajudá-lo com os afazeres.

Janicelhe cresceu. O amor e companheirismo de Antônio cresceram com ela.
Ela lembra, com carinho, que ao chegar na mercearia, o diálogo sagrado de todo dia também passou a ser acompanhado de um forte abraço e de um beijo.

Eram através deles que Antônio demonstrava como o amor de pai transcende laços de sangue.

Antônio nasceu em Simão Dias (SE) e faleceu em Niquelândia (GO), aos 84 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela afilhada de Antônio, Janicelhe Ferreira Martins Ribeiro. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Raquel Rapini, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 29 de agosto de 2020.