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Antônio Marquezini

1945 - 2021

Chavinho estava sempre aprontando alguma, como o dia em que fugiu de casa com a velha kombi.

"Homem maravilhoso, trabalhador, forte e guerreiro." É assim que Antônio, ou Chavinho, como era chamado pelos familiares, será lembrado. Nascido no interior de São Paulo, mudou-se para a capital à procura de trabalho. Apesar das dificuldades, foi um sujeito dedicado e se estabeleceu profissionalmente.

Durante a mudança, conheceu o amor de sua vida, sua esposa e companheira Maria Helena. A família era o seu bem mais precioso; pai protetor, nunca deixou faltar nada às três filhas: Marcia, Daniela e Luciana. Avô de quatro netos, gostava de ser mimado e de mimar, com brincadeiras, doces, balinhas e picolés.

Nos finais de semana, queria sempre reunir os familiares e ficava feliz quando comiam a gororoba que preparava. Com seu jeitinho bem-humorado e presença notória, estava sempre fazendo piadas, dizendo: "tá tudo errado", "que povo doido; tudo maluco". Momentos memoráveis, que serão sempre lembrados com boas risadas.

"Ele sempre comia meus bolos e tortas, apesar de dizer que não gostava de leite e manteiga. Certa vez, fizemos um pedido de esfihas que acabou vindo errado. Todos discutindo, tentando se explicar em volta da mesa, e o meu pai lá, nem ligando, comendo e assistindo à confusão, como se nada estivesse acontecendo... Questionado por estar comendo, ele disse: 'Lógico, não sou besta...', e todos riram da situação. Ele era um barato, eu poderia escrever muitas histórias e acontecimentos sobre o homem maravilhoso que ele foi. Sempre será lembrado por todos nós", relata, com carinho, a filha Luciana.

Religioso, tinha uma fé inabalável, era um fiel servo de Deus. Batizado na igreja evangélica da Congregação Cristã no Brasil, gostava de ler, fazer anotações e, com seu jeitinho, explicar as passagens da Bíblia.

Simpático, gostava de assistir Chaves (daí o apelido), fazer compras na feira e ir ao mercado aos sábados. Acompanhava diferentes telejornais falando sobre a mesma notícia, para depois conversar e debater o assunto. Com seu "jeito de criança", estava sempre se metendo em confusões e vivendo aventuras.

"Alguns anos atrás, meu pai já aposentado cansou de viver em Guarulhos. Queria silêncio, sossego, voltar pra cidade natal. Um certo dia, esperou todos saírem de casa, pegou a velha kombi dele e simplesmente foi! "Fugiu" sem avisar ninguém. Quando chegamos, percebemos que ele havia sumido e, desesperados, ligamos para as minhas tias de Pongaí. Foi quando acabamos descobrindo que ele havia ido sozinho... Depois de um tempo ele acabou desistindo da ideia, percebeu que não tinha jeito: a cidade apesar de pequena e sossegada não era mais pra ele, pois, no dia a dia não tinha a companhia das filhas e dos netos. Sempre ríamos do episódio, apesar de ter sido triste por não ter ele por perto; ficou pra sempre marcado na nossa memória o dia em que nosso pai fugiu de casa" relembra a filha, com amor e emoção.

Chavinho deixa saudade, a lembrança de boas risadas e um legado de carinho.

Antônio nasceu em Pongaí (SP) e faleceu em Guarulhos (SP), aos 75 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Antônio, Luciana Marquezini. Este tributo foi apurado por Andressa Vieira, editado por Felipe Bozelli, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 19 de setembro de 2021.