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Arcelino Dace

1942 - 2020

Grande sábio Munduruku, dominava técnicas e conhecimentos tradicionais, a história e a língua do nosso povo.

Da geração dos últimos sábios Munduruku, dominava técnicas e conhecimentos tradicionais dos mais diversos. Entendia muito sobre a cosmologia do nosso povo indígena.

Guardava consigo um enorme acervo. Podia passar uma noite inteira contando histórias do povo Munduruku e seu repertório não acabava.

Filho de dois entre os últimos Munduruku que migraram da região de savana para as margens dos rios atraídos por missões franciscanas, Dace Biorebu nasceu em 1942, na região do Rio Cururu (município de Jacareacanga, no Pará). Na língua portuguesa, era conhecido por Arcelino Dace.

Seus pais o prepararam desde cedo para aprender conforme o modo tradicional. Segundo seu relato, o casal não falava português, caçava com arco e flecha e usava vestimentas Munduruku, dispensando os calçados.
Todos os jovens de sua geração eram ensinados na “Uksa”, um tipo de casa de guerreiros. Ali os mais velhos transmitiam aos mais jovens conhecimentos em cosmologia, arte, história, forma de organização e defesa, agricultura, caça, pesca, remédios tradicionais, xamanismo, entre outros.

Assim, os Munduruku tornavam-se sábios. Mas cada um se aprofundava em habilidades e conhecimentos distintos. Arcelino conhecia diversos temas, como pintura, cântico, instrumentos musicais e histórias, mas tornou-se um especialista reconhecido no artesanato e como "puxador".

O clã de Arcelino é o de cor “esbranquiçada” e sua linhagem é “Dace”, que significa em português “harpia” ou “gavião-real”, a maior águia da Amazônia. Durante sua juventude, conheceu Kaba Remug’u͂m (in memoriam) ou Luzia Kaba Munduruku, em português. Ela pertencia ao clã “avermelhado” e ao sub-clã “Kaba”, denominação dada a uma espécie de papagaio.

Com ela, Arcelino construiu família e tiveram oito filhos, cinco homens e três mulheres, quando de sua passagem pelas aldeias Kaburua e Katõ, já nos anos 70. Após passar por outras aldeias, em 1999, Arcelino veio para a cidade de Itaituba (PA), no Médio Rio Tapajós, em busca de tratamento para sua saudosa esposa, à época diagnosticada com tuberculose.

Estabeleceram-se na aldeia Praia do Mangue, onde vivia seu cunhado João Kaba. Construiu lar, os filhos cresceram, casaram-se, vieram os netos. Hoje, o pequeno espaço que fica na aldeia Praia do Mangue, tem o suor e o trabalho deste homem sábio e trabalhador.

Ainda que analfabeto, Arcelino era culto e versado em semântica Munduruku. Conhecia diversos recursos linguísticos encontrados nas variações de pronúncia e significados e sabia palavras antigas em Munduruku que a geração de hoje não reconhece. Em razão dessas habilidades linguísticas, ainda na década de 70, foi convidado a colaborar com o Summer Institute of Linguistics (SIL) e com a Igreja Batista na tradução do Novo Testamento da Bíblia para a nossa língua.

Tinha a difícil missão de trabalhar os termos bíblicos a partir do ponto de vista do nosso povo. Transformava termos oblíquos e ambíguos em palavras e expressões precisas, conforme demanda a compreensão e aquisição de conhecimento Munduruku.

Conhecia como ninguém a floresta, o mato, veredas, riachos e espécies de plantas e frutas silvestres. Além do incansável trabalho na roça, foi também um grande caçador e pescador. Nessas atividades, sua inseparável esposa frequentemente o acompanhava. Ela era seu piloto na popa da canoa. Sabia contornar todos os desafios que a vida lhe impunha. Se acabava o açúcar, fazia café com garapa de cana. Não demonstrava moleza. Era um pai tradicional, à moda de seus ancestrais, rígido e exigente.

Suas habilidades de bom “puxador” lhe foram reveladas aos seus 30 anos mais ou menos. Em um sonho, conseguiu puxar e curar um filhote de calango que estava morrendo de “desmentidura”, ocasião em que o pai do calango confirmou que ele era um bom puxador. Quando acordou, lembrou-se do que o calango havia lhe dito e teve a ideia de puxar o filho que sofria com uma inflamação na articulação devido a uma queda. Deu certo e o filho moribundo ficou sarado. Com o tempo, Arcelino foi aprimorando a técnica até ser reconhecido como o melhor puxador do Médio e Alto Tapajós. Ajudou muitas crianças e adultos doentes a se curarem de traumas de desmentiduras, de fraturas e machucados. Era muito procurado tanto por indígenas como pelos brancos. Seu desejo era que um dos filhos aprendesse também a puxar. Foi o caso de Eliana Dace.

Arcelino, como seus ancestrais, era homem que levava a sério todos os seus sonhos. Quando sonhava algo negativo, costumava fazer um tipo de ritual de “cura”, espécie de oração conhecida tradicionalmente. Ele era um grande conhecedor de plantas medicinais, na época não havia praticamente o acesso aos medicamentos da medicina ocidental. Então, muitas doenças comuns eram tratadas com medicamentos tradicionais, tais como gripe, diarreia, coceiras, febre, inflamação, entre outras.

Conhecia remédios de origem vegetal e animal para tratar crianças, especialmente quando tinham dificuldades em aprender a falar e andar. Também sabia prevenir, com remédios, a morte de crianças pelo “axik”, espécie de espírito infantil. Sabia confeccionar uma miniatura de boneco em madeira, capaz de desviar a atenção dessa criatura sobrenatural.

Além dos bonecos, sabia fazer pulseiras e colares muito lindos utilizando madeiras brutas, coco de tucumã e osso de boi. Arcelino era exímio artesão, por isso foi também muito procurado pelos turistas que visitavam a região do Médio Tapajós.

Todos nós, seus filhos, crescemos “curados” com remédio tradicional e aprendemos a falar português, cumprindo o seu desejo de que soubéssemos essas e outras coisas importantes.

O povo Munduruku perdeu mais um de seus valiosos sábios durante a pandemia que veio assolar, de forma desastrosa, as aldeias do Médio e Alto Tapajós.

Arcelino Dace Munduruku, faleceu no dia 03 de junho de 2020 pela manhã, levando tudo o que adquiriu em sua trajetória de vida. Ninguém e nem seus filhos herdou todo o seu legado. Deixa conosco o exemplo de um homem sábio, humilde, trabalhador e honesto; qualidades que serão lembradas eternamente.

Arcelino nasceu em Jacareacanga (PA) e faleceu em Itaituba (PA), aos 77 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo filho de Arcelino, Honésio Dace Munduruku. Este tributo foi apurado por Giovana Madalosso, editado por Giovana Madalosso, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 26 de novembro de 2020.