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Benedito Silvério de Andrade

1946 - 2020

Ele amava as estradas e sabia que "com fé em Deus no final tudo dá certo".

Com apenas 8 anos, o mais velho de cinco irmãos já sabia que a vida não seria nada fácil. Com o falecimento da mãe, Benedito foi separado dos irmãos e cada qual foi adotado por uma família diferente. Era preciso seguir em frente, porém, e ele o fez, sempre dizendo: "Fé em Deus que no final tudo dá certo".

Amava viver nas estradas. Viajar era sua grande paixão. Benedito era feliz dirigindo seu caminhão por todo canto deste país e, quando ficava muito tempo ocioso em casa, começava a ficar inquieto e desesperado para voltar a fazer aquilo que mais gostava. Foi assim que conseguiu construir sua família, sempre viajando e deixando a esposa e os filhos saudosos até o retorno da viagem seguinte.

O choro dos filhos era certo quando o viam ligar o caminhão para partir, mas ele dizia que era preciso trabalhar para colocar comida na mesa e assim se despedia: "Logo, logo o papai volta", deixando-os um pouco mais calmos.

Adorava comer peixe, caldo de feijão e quibe recheado. Era sempre carinhoso e educado, querido por todos que o conheciam.

Para ele, não havia paixão maior que os netos Mariana e Pedro. Benedito e Pedro tinham uma ligação inexplicável e fora do comum, parecia que já se conheciam de outras vidas, tamanha a afinidade e paixão de um pelo outro.

Benedito tinha um imenso orgulho da família que construíra. Embora pequena, sua família era, como costumava dizer, "do jeito de que eu sempre sonhei".

Suas qualidades eram muitas: trabalhador, responsável, pai, marido e avô amoroso e bastante religioso. Sempre colocava Deus em suas frases de incentivo e ânimo.

Ao sair para mais uma viagem, beijou a esposa e saiu dizendo que logo estaria de volta, que havia muita coisa para fazer em casa quando retornasse e não via a hora de usar a maleta de ferramentas novas, que ganhara no Dia dos Pais.

Infelizmente não deu tempo de usá-las. Parado num posto de combustível, falou por telefone com a esposa e os filhos pela última vez. Mesmo diante da gravidade da doença, disse calmamente que estava tudo bem.

Deixou a vida fazendo o que mais gostava. Fez sua última viagem e, agora, lá de cima, certamente deve estar dizendo: "Fé em Deus que no final tudo dá certo".

Benedito deixa lindas lembranças e muitas saudades.

Benedito nasceu em Monte Aprazível (SP) e faleceu em Santa Helena de Goiás (GO), aos 73 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo filho de Benedito, Anderson Vilela de Andrade. Este texto foi apurado e escrito por Lígia Franzin, revisado por Paola Mariz e moderado por Phydia de Athayde em 8 de janeiro de 2021.