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CARLESSANDRA FAGUNDES ALVES CARDOSO

1984 - 2020

Virava criança nos festejos juninos. Queimava esponjas de aço para simular o efeito das chuvinhas.

Alegre, solar, assim como Ilhéus, na Bahia, sua terra de origem, Carlessandra, irradiou seu brilho por onde passou. Seu sobrenome era Cardoso, mas poderia muito bem ser descontração, afeto e amor. Quando a vida lhe apresentava desafios, não lhe faltava coragem para superá-los. A Sandrinha, assim com conhecida, era uma baiana arretada e sempre encarou as mudanças de frente.

Sua vida foi bastante intensa. Casou-se cedo e logo ampliou a família, com a chegada do Gabriel e em seguida da Ana Eloisa. Em busca de oportunidades para melhorar as condições de vida, mudou-se com eles para o Estado de São Paulo. A primeira parada foi em Americana. As incertezas do momento só não eram maiores que a esperança de ter uma vida melhor.

Uma das únicas certezas que temos é que tudo se transforma. Com a Sandrinha essa máxima se confirmava com muita brevidade. Pouco tempo depois da chegada em São Paulo, o primeiro casamento chegou ao fim. Mudou-se para Itapevi, cidade que se tornou a sua segunda casa. A guerreira precisou se reinventar. A vida para ela não era fácil, ainda assim, positividade não lhe faltava. O que importava era viver a vida, um dia de cada vez, e tentar ser feliz.

Sandrinha adorava pôr ordem na casa! Era superorganizada e detalhista. Da geladeira ao guarda-roupa, tudo era milimetricamente organizado e cheio de harmonia. O que era mania, se tornou o seu diferencial no mundo do trabalho. Foi flanelinha, conquistou estabilidade econômica como diarista na região de Barueri e Alphaville, região metropolitana de São Paulo, mas sonhava em ser cabeleireira. A profissionalização na área de beleza foi uma provocação de uma das patroas, quando identificou nela esse potencial. E ela estava muito empenhada em realizar.

Eis que o tempo, o compositor de destinos, lhe reservou um novo presente, uma nova família. Conheceu o Clayton, e em menos de seis meses, entre uma peça e outra de roupa que o rapaz levava para a sua casa, já estavam casados. Com ele, Sandrinha aproveitou várias baladas, muitos encontros e passeios, e ganhou uma nova família.

“Ter vivido com a Sandrinha, foi a maior felicidade, um grande presente para mim. Fruto do nosso amor nasceu a Helena, sonhamos juntos acompanhar o crescimento dos nossos filhos. Lembro com muita saudade de todo amor e cuidado que ela teve com todos nós!” ressaltou Clayton.

A conversa com os amigos e um bom churrasco era o que não podia faltar no programa do final de semana. Era fã dos ritmos sofrência e arrocha. Cozinheira de mão cheia, apresentou aos amigos paulistas as comidas típicas da sua terra: as moquecas, o sarapatel, o camarão na moranga, e para o maridão a sua carta na manga era o famoso strogonoff com batatas-fritas.

Sua alegria era contagiante, por isso não podia faltar nas viagens de família para Mongaguá-SP, no litoral paulista, nem tampouco das festas juninas que incentivava a realizar, e se empenhava na organização. Com ela, o sítio em Mairinque-SP ganhava ares dos arraiás do interior baiano. Nos festejos, aquela mulher tão forte, tão determinada, virava criança. Aquela menina do sul da Bahia, que sem dinheiro para a compra de fogos, queimava esponjas de aço para simular o efeito das chuvinhas. Todos achavam o máximo!

“Um lindo sorriso no rosto, alegria por onde passava, muito boa, só trazia momentos bons. Sandrinha foi anjo de luz e me ajudou a olhar a vida de um jeito bem diferente, com mais leveza, sem espaço para o estresse”, diz com muitas saudades, Tatiane, a amiga, irmã e comadre.

Com a Sandrinha todos os momentos foram únicos. Em vida ela sempre foi luz. Sua passagem foi curta, mas intensa e carregada de ensinamentos. A simplicidade, a alegria, a força, a determinação e o amor foram motores de positivos encontros que estão eternizados nas lembranças, corações e mentes daqueles que tiveram o privilégio de com ela conviver. Cassandra, a Sandrinha, nunca será um número!

CARLESSANDRA nasceu em Ilhéus (BA) e faleceu em Itapevi (SP), aos 35 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela amiga e pelo marido de CARLESSANDRA, Tatiane Coimbra e Clayton Silva dos Santos. Este texto foi apurado e escrito por Fabrício Nascimento da Cruz, revisado por Bettina Florenzano e moderado por Rayane Urani em 8 de janeiro de 2022.