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Dávila Maria Da Cruz Andrade

1985 - 2020

Mergulhou nas profundezas da Mãe D'Água e de si mesma; de lá, transbordou amor.

Dávila nasceu no sertão paraibano, em uma cidade banhada pelo do açude Coremas-Mãe D'água, águas que banhavam o povo indígena Coremas, que antes haviam vivido na região. Foi nessa terra fértil de águas e histórias que Dávila cresceu e floresceu. O espelho desse complexo hídrico, a fluidez de suas águas e as chuvas que chegavam ao sertão enchiam de alegria o coração dessa sertaneja que ganhou a liberdade de alçar voos para além do seu território e ser uma “mulher do mundo”, como bem dizia sua vó Margarida.

Seus pais, Francisco e Maria Aparecida, trabalharam a vida inteira para dar uma educação de qualidade para as filhas. Foi assim que Dávila saiu do sertão aos 17 anos para estudar Comunicação Social-Jornalismo na Universidade Estadual da Paraíba. Antes de se formar, ingressou em Filosofia em 2005. Sua mente geminiana fértil e fervilhante de ideias sempre se mostrou disposta a fazer reflexões profundas sobre o ser e o existir. Era ávida por conhecer novas coisas, lugares, pessoas e viver tudo que houvesse para viver. Foi nessa época que conheceu Larissa Lira, uma parceira de lutas do movimento estudantil que despertou um novo ideal na alma de Dávila.

Larissa a apresentou aos mistérios da floresta e à religião do Santo Daime. Em um entrecruzar de caminhos, Dávila encontrou seu professor da graduação, Rômulo Azevedo, que era quem dirigia a igreja Céu da Campina. Ao mergulhar no Daime, Dávila sempre haveria de ter Rômulo como seu padrinho e grande professor. A doutrina do Mestre Império Juramidam foi mais um dos oceanos em que Dávila mergulhou profundamente, dessa vez sob a guia de Raimundo Irineu Serra. Ela que sempre gostou de viagens, agora podia navegar na sua consciência e expandir sua mente em todas as dimensões, da terra ao astral.

Foi o Santo Daime que despertou a continuidade e segmento da sua carreira acadêmica, resultando em uma dissertação de mestrado que foi pioneira na academia sobre a história do Santo Daime na Paraíba e Nordeste do Brasil. Mais tarde, ela ingressou no doutorado, ainda tendo a religião como inspiração. Dessa vez, Dávila dedicou-se a conhecer e estudar o movimento das mulheres daimistas, o Emflores Nordeste, evento que ajudou a organizar. Assim, passou a unir as mulheres da floresta até o mar. Quando o evento passou a ser itinerante, ela fez questão de acompanhá-lo por todo o Brasil. Sua avó Margarida provou estar certa em sua profecia: Dávila foi mesmo uma mulher do mundo, espalhando muita alegria por onde passava.

A doutrina do Santo Daime foi a sua forma de vida, onde pôde ser escudeira fiel, ponta de lança do batalhão feminino, e zeladora das memórias. Livre como as águas, Dávila navegou por diversas tradições, descobrindo mais sobre si, sobre o mundo e sobre os outros. Seu espírito e abraço acolhedor ficarão gravados no coração de todos que tiveram a graça da sua presença.

Dávila nasceu em Coremas (PB) e faleceu em Campina Grande (PB), aos 35 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela cunhada e comadre de Dávila, Fabiana Ferreira do Nascimento. Este tributo foi apurado por Andressa Vieira, editado por Paula Garcia Corrêa, revisado por Roxanna Ramaciotti Mires e moderado por Rayane Urani em 19 de setembro de 2021.