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Domingos Sávio Brito Fonseca

1961 - 2020

Era grato, diariamente, por mais um dia de vida.

Mais conhecido como Sávio, era uma pessoa comunicativa e que gostava de rir escutando as conversas. Nasceu numa comunidade indígena, em uma família numerosa, e ainda pequeno ficou órfão de pai, sendo então criado pela mãe e pelas irmãs.

Casou-se jovem e teve dois filhos. "A cada formatura, cada conclusão de curso de seus filhos, Sávio ficava que nem um pavão", conta, sorrindo, Fábia Tatiane, ao relembrar seu querido tio. "Ele e a esposa eram sempre convidados para serem padrinhos das crianças que iriam ser batizadas, provavelmente devem ter uns 50 afilhados", diz a sobrinha.

Gostava de estar com a família nas datas comemorativas, sentia-se bem ao lado deles. "Nós, da família, jamais esperávamos que sua partida fosse ser assim, sem despedida, sem contato... Ficamos aqui com as lembranças e a saudade de agora chegar na sua casa e ele não mais nos receber... Mas sei que, onde quer que esteja, sabe que foi muito querido e amado!", lamenta Fábia.

O filho Graciliano guarda a imagem do pai como "uma pessoa exemplar, batalhadora, brincalhona e que estava sempre de bom humor".

Sávio era flamenguista doente e não perdia um jogo.

Dedicou vinte e cinco anos de sua vida ao serviço público federal como técnico administrativo no IFAM Campus São Gabriel da Cachoeira (antiga Escola Agrotécnica). Nunca faltou um dia ao trabalho (trabalhou até com sintomas da Covid-19, pois pensava ser somente uma gripe). Era conhecido no trabalho pelo profissionalismo e pela ética.

Era um esposo atencioso e um pai maravilhoso. Deixou a esposa Maria da Conceição e dois filhos, Graciliano e Gracivan. Nunca deixou faltar nada, sempre compromissado em dar o melhor para a família.

Dia de domingo era sagrado, acordava cedo para ir à missa e, na volta, fazia churrasco para os familiares e aguardava chegar a hora do jogo do seu Mengão.

Teimoso, quando ficou doente, pensou que fosse apenas uma gripe; depois foi ao posto de saúde e de lá foi levado imediatamente ao hospital com suspeita de Covid-19. Em momento algum reclamou de nada, não gostava de preocupar a família, principalmente a esposa hipertensa. Do hospital, sempre que conseguia entrar em contato, dizia estar bem e melhorando. Ele partiu, infelizmente. O mundo perdeu um ser humano excepcional, mas o céu ganhou mais uma estrela.

Domingos nasceu em Iauaretê (AM) e faleceu em São Gabriel da Cachoeira (AM), aos 58 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelos familiares de Domingos, Fábia Tatiane Fonseca da Silva e Graciliano Gonçalves Fonseca. Este texto foi apurado e escrito por Lígia Franzin, revisado por Paola Mariz e moderado por Rayane Urani em 6 de novembro de 2020.