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Francisco Romeu da Silva

1963 - 2020

Uma pessoa muito querida, humilde, batalhadora e com um sorriso sempre estampado no rosto.

Francisco Romeu, ou apenas Romeu, como era mais conhecido, era uma pessoa muito simples, daquelas que gostaam das coisas mais puras. Tudo para ele estava bom, desde que a família estivesse feliz. “Nós éramos cinco filhos, duas irmãs e três irmãos, sendo ele o mais velho dentre os homens!”, nos contou Marlene, sua irmã.
Deixou seu Ceará aos 17 anos e foi para o Rio de Janeiro tentar uma vida melhor. No Rio trabalhou em mercado, em posto de gasolina, foi garçom. Trabalhar não o assustava. Por fim, o trabalho em que ele se firmou mesmo foi o táxi. Saía cedo, ligava seu radinho do carro, sintonizava nas notícias do Brasil e do mundo, sempre na mesma rádio, e ia ganhar sua vida. Não era muito de ouvir música, mas, se o cliente quisesse, o cliente mandava. Não tinha muito estudo, mas sabia conversar sobre todos os assuntos da atualidade.

A irmã Marlene nos contou que Romeu era solidário, prestativo, “gostava de ajudar e fazia favor a todo mundo”. E, mesmo que o tratassem mal, logo perdoava, não guardava raiva de ninguém, prática coerente com sua prática católica. Era frequentador da Igreja de São Francisco de Assis, no Rio. E era um tanto vaidoso, “gostava de estar sempre muito bem apresentado, sempre de cabelo cortado e barba feita, arrumado e cheiroso”, conta a irmã.
Não era um esportista, mas seu time do coração, o Vasco, mantinha lugar sagrado em sua vida desde a infância. Ah, fazia tudo para não perder um jogo. E gostava de assistir a jogos de outros times também. Mas a paixão pelo esporte não parava por aí. Francisco costumava praticar seus exercícios ao ar livre, andava de bicicleta e sempre fazia caminhada nas suas folgas do trabalho.
A irmã conta que conviveu pouco com Romeu, e que por isso tem poucas lembranças da infância, mas algumas ficaram bem marcadas, como as festas em família, quando todos se juntavam para comer e Romeu sempre levava suco de manga, acerola e goiaba. “O detalhe engraçado é que todo mundo já sabia o que ele ia levar, e isso se transformava na piada das festas”, contou Marlene. A irmã disse ainda que outras lembranças ficaram gravadas em sua memória, e vêm cercadas pelo bom humor, pelo sorriso e pela vontade de ajudar o próximo sempre. Marlene nos contou que “a paixão de Romeu era a família e os sobrinhos” e que “uma das manias que mais vão ficar na memória era que, em todos os momentos de festas e momentos em família, ele adorava tirar foto de tudo, pegava o celular e sempre registrava os melhores momentos”.

“Meu irmão foi o 29º taxista a perder a vida para a Covid-19 na cidade do Rio de Janeiro”, concluiu assim nossa entrevista a irmã Marlene.

Francisco nasceu em Nova Fátima (CE) e faleceu no Rio de Janeiro, aos 56 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela irmã de Francisco, Marlene Maria dos Santos de Lucena. Este tributo foi apurado por Carla Cruz, editado por Sandra Maia, revisado por Otacílio Nunes e moderado por Rayane Urani em 31 de agosto de 2020.