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Hildo Vieira de Lima

1937 - 2020

Levou várias picadas de cobra durante a vida, infortúnios que fortaleceram sua fé.

Na roça, a rotina de trabalhar de sol a sol começava cedo para o baiano Hildo. Ele era forte como poucos: na infância, fora picado por uma cobra e, adulto, ainda sofreu outros sete ataques, pois morava numa fazenda "repleta de serpentes", afirma Dinailton, um de seus filhos.

Anos mais tarde, o lavrador tornou-se vendedor, embora preferisse, nas palavras do filho, "perder o negócio à amizade, ou seja, vendia muito e recebia pouco". Dinailton pontua que o pai também teve mercearia e chegou a alcançar "boa condição financeira".

Pai presente, "não gostava de bater nem de brigar; ensinava bons modos e nos aconselhava. Nunca deixou faltar nada pra gente", relembra Dinailton. Foram 14 filhos com o grande amor da vida dele, Maria. "Os quatro primeiros faleceram muito novos, e nove estão vivos hoje. Meus pais estavam juntos por mais de cinquenta anos. Quando ela partiu, um ano antes dele, ele foi ficando fraquinho", explica.

A maior alegria do aposentado Hildo eram os onze netos. Da décima segunda neta, acompanhou a gravidez, porém, infelizmente, ela nasceu após a sua partida. Era muito carinhoso, esmerando-se em agradá-los com presentes e comidas favoritas — especialmente doces, pizzas e cachorros-quentes. Entretanto, não costumava juntar-se aos netos nas brincadeiras. "Falava que era para eles não perderem o respeito pelo avô", recorda Dinailton.

Homem de muita fé, Hildo creditava a Deus os livramentos da morte experimentados na fazenda. "Quanto à caridade, ele jamais negava ajuda a um pedinte: se tivesse o que compartilhar, nunca dizia que não tinha. Quanto a frequentar a igreja, meu pai argumentava: 'Deus está em todo lugar, aqui ou lá'. Assim, os membros da igreja é que iam até a casa dele, que não gostava muito de sair do seu canto".

Mesmo sendo caseiros, o casal recebia muito bem os amigos e familiares. Não faltavam forró e músicas da Jovem Guarda na lista das mais ouvidas por Hildo. Tampouco faltava a paixão pelo time do coração: o Vasco da Gama! "Perdendo ou ganhando", garante o filho.

Dinailton revela que Hildo teve outros dois filhos, frutos de um relacionamento anterior. Todavia, os irmãos paternos não conviviam com a nova família. "O que não impedia que ele pensasse sempre neles", conta o filho.

"Meu pai era uma pessoa alegre e aparentemente saudável", ressalta Dinailton. "Agora, o que nos resta é a saudade e o pedido: se cuidem!"

Hildo nasceu em Poções (BA) e faleceu em Porto Seguro (BA), aos 83 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo filho de Hildo, Dinailton Lopes. Este tributo foi apurado por Talita Camargos, editado por Luciana Assunção, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 11 de dezembro de 2021.