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Ismael Lino do Nascimento

1943 - 2020

Homem feliz, trabalhador, sonhador e, acima de tudo, pai.

Ismael Lino do Nascimento tem nome de brasileiro e carrega em sua história a garra de quem lutou pela sua família. Foi um homem de sonhos, de vitalidade e de felicidade. Pai de sete filhos, Ivan, Isaias, Alexandro, Rosângela, Rosineide, Roseane e Ivanildo, dedicou sua vida a colocar o “pão de cada dia nos dai hoje” na mesa de sua casa.

Filho de portuguesa e de indígena, personificou o homem guerreiro. Foi pedreiro, feirante, vendedor de milho, de cocada e do que fosse necessário para sustentar sua família. Foi o braço direito — e também o esquerdo — de sua mãe, sempre buscando ajudá-la. E não só ela, Ismael buscava estar sempre presente para todos.

Durante o trabalho, sua “bicicletinha de pão” era sua companheira. Com ela, ele se locomovia para as obras, para o rio, para o Mercado de Carnes de Recife e, principalmente, para o Ceasa da cidade. Lá comprava o seu milho para vender ou, em época de pitomba, a deliciosa fruta exótica do Nordeste brasileiro. Trazia quilos e mais quilos para casa, por meio da tração de suas pernas. Tornou-se um homem forte, não só em personalidade, mas também no físico.

Na correria para criar os filhos, Ismael nunca se abalou, e encontrava soluções mesmo onde as pessoas achavam que seria impossível. Foi dessa forma que surgiu sua cocada. Ao final do dia, ia aos quiosques das praias de Recife para coletar o coco e transformar na açucarada sobremesa. Sua animação contrastava com a vida de luta, mas para quê se abalar? Encontrava força nos filhos, para os quais não media esforço para dar o melhor possível.

Amante da pesca, trazia em sua bicicleta, com a felicidade estampada no rosto, os peixes para sua família, que logo iam para a panela. Tornou-se mestre em servir peixe e bife frito para os filhos e a mulher, sendo o segundo, não um fruto do rio, mas do Mercado de Carnes.

Foi um homem de sonhos, que sempre prezou em buscar o seu. Em meio à vida, teve sua lambreta, da qual Ivan, um de seus filhos, lembra com muito carinho: “Andei com ele na lambreta, demos uma volta maravilhosa nas ruas. Ele me colocou sentadinho, no meio. Lembro-me até hoje”. Conquistou, em vida também, seu fuscão 76, no qual ensinou o filho a dirigir.

A ótima relação com os filhos durante a infância permaneceu com o passar do tempo. Um de seus sonhos era conhecer o Rio de Janeiro, cidade onde mora um dos filhos, mas o medo do clima falava mais alto. Acostumado com o calor de Recife, tinha receio do “frio” do Rio de Janeiro, de acordo com as notícias que ouvia da cidade.

Ismael Lino, ou Ismael da Jaca, como era conhecido pelos amigos, foi um homem de garra. “Meu pai era tudo para mim”, conta Ivan. Para a esposa, filhos e netos, não fica apenas a saudade, mas também a inspiração que o homem da família se tornou.

Ismael nasceu em Recife (PE) e faleceu em Recife (PE), aos 77 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo filho de Ismael, Ivan. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Júlia Pontes, revisado por Lígia Franzin e moderado por Phydia de Athayde em 9 de outubro de 2020.