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João Batista Ramos de Freitas

1956 - 2020

Pai e avô amoroso, tinha um banco cativo na praça, para conversar com o neto.

João era filho único, sempre muito preocupado e zeloso com a mãe, que foi diagnosticada com Alzheimer em 2018 e mora em uma clínica geriátrica. Ele a visitava, no mínimo, duas vezes por semana, levava os alimentos de que ela gosta, agradinhos, itens de higiene e medicamentos. Nunca deixou faltar nada.

Na família, o apelido dele era Cururu, em referência ao sapo. Segundo a filha Thaís Bonotto, o cunhado Enzo sempre o chamava assim. João deixou a esposa, três filhos biológicos, um filho adotivo e um neto.

"Sempre foi um pai dedicado, preocupado com os filhos, principalmente quanto à educação. Era um homem simples, abdicou dos luxos da vida para oferecer o melhor aos filhos. Todo verão fazia questão de ir à praia de Torres (RS) e levar consigo o maior número de pessoas que conseguia, gostava da casa cheia de amigos e familiares. Ele se programava o ano inteiro para as férias de verão. Nos últimos sete anos, as férias eram ainda mais esperadas, já que era louco pelo neto e fazia todas as suas vontades. Todos os anos, no último dia de veraneio, os dois tinham que dar uma volta de Dindinho", recorda a filha.

João trabalhou 34 anos na Fase, a antiga Febem. Inicialmente, em 1986, lidava com crianças em situação de abandono e, mesmo já tendo dois filhos pequenos, sensibilizava-se pela situação das crianças que moravam lá. "Todos os domingos ele levava em média uns 10 meninos para que fossem almoçar lá em casa. Passavam o dia conosco, jogávamos futebol todos juntos, algumas vezes apenas assistíamos televisão", destaca Thaís. Ela conta que, um dia, um desses meninos, chamado Alcino Santa Helena da Silva, foi escolhido por um casal de italianos para ser adotado. Chorando, disse que não queria ir para a Itália, mas gostaria de ir para a casa do "Seu Batista". Foi então que João chegou em casa e conversou com a esposa. A partir daí, a família ganhou um novo integrante, que sempre demonstrou, segundo Thaís, muito amor e uma gratidão incondicional pelos pais.

"Posteriormente, ganhamos mais um irmão, o terceiro biológico. Meu pai sempre brincava que o Alcino deixou de ser rico na Itália, para ir morar conosco; que não soube fazer uma boa escolha. Mas eu sei que, no fundo, ele sempre soube que a escolha dele foi por amor. Amor ao meu pai, primeiramente, e amor por nossa família", destaca.

O seu último grande amor foi o neto, João Gabriel, de 7 anos. Os dois eram melhores amigos. Thaís diz que sente uma tristeza enorme ao pensar que o neto deixará de ter a convivência com o avô tão cedo. "Meus pais cuidavam do João Gabriel durante o dia, para que meu irmão e minha cunhada fossem trabalhar, então o neto tinha no avô uma referência muito grande, os dois eram tudo um para o outro", relembra.

Segundo a filha, os dois, avô e neto, tinham um lugarzinho especial, um cantinho só deles, um banco numa praça próxima de casa. Lá, eles saíam para conversar no final da tarde, ou até mesmo quando o João Gabriel estava desobediente. No verão, sentavam no banco para tomar banho de chuva.

"Durante a internação do pai no CTI, devido à Covid, minha mãe pediu que a técnica de enfermagem falasse para ele que o João Gabriel estava esperando por ele, para sentarem no banco da praça", conta Thaís.

Além de excelente pai e carinhoso avô, João tinha uma marca registrada: era brincalhão ao extremo. Thaís conta que muitas pessoas, que foram dar os pêsames, lembraram-se dos apelidos que ele tinha colocado nelas. "Bastava cinco minutos de conversa com ele, que todos já ganhavam um apelido novo", diz a filha.

Também era um gremista fanático, fazia loucuras para acompanhar o time onde fosse.

"Meu pai deixou uma lacuna enorme na vida de todos. Ele se fazia muito presente, sempre ajudando, perguntando se precisávamos de algo. Se alguém precisasse ir a qualquer lugar, ele se dispunha a levar. A saudade dele é e sempre será enorme. Infelizmente, o banco da praça não receberá mais o meu pai lá, nem o neto receberá seus conselhos, nem a família terá sua presença constante, nem os amigos suas brincadeiras", finaliza Thaís.

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Queria sempre a família por perto, inclusive para viajar.

João gostava de reunir todos os filhos, sempre.

Um homem trabalhador e apaixonado por cachorros, que há pouco havia perdido um amigo e ganhado outro. "O Tcheco faleceu em setembro, e o presenteei com outro cachorro, em novembro", diz o filho João Marcello Bonotto de Freitas.

Junto ao novo companheiro, o filho entregara uma carta ao pai, que dizia: "A vida é bem melhor quando estamos acompanhados dos amigos. Obrigado por me acompanhar."

João ajudou os filhos, amava o neto e gostava de viajar com a família. Fosse para a Argentina ou para qualquer lugar, estava sempre bem acompanhado.

João nasceu em Porto Alegre (RS) e faleceu em Porto Alegre (RS), aos 63 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelos filhos de João, Thaís Bonotto de Freitas e João Marcello Bonotto de Freitas. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Vanessa Puls e Gabryela Magueta, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 28 de junho de 2020.