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Joel Ribeiro Martins

1945 - 2020

Foi dono da melhor barraca de caipifrutas dos municípios baianos de Prado e Itamaraju.

Ele era conhecido como Duda. Joel, o nome oficial, não era o que sua mãe queria; Dutra era o nome escolhido por ela, mas o funcionário do cartório não quis registrar. Já que não podia ser Dutra, ela colocou o apelido de Duda.

Duda trabalhava na cantina de uma escola e na melhor barraca de caipifrutas de Prado e Itamaraju. Fosse no São João, no Carnaval ou na temporada de verão, ele e sua esposa montavam a barraca e trabalhavam até o amanhecer. Joel adorava organizar churrascos em casa, comemorar os aniversários e juntar a família. Nas horas livres o passatempo preferido era assistir televisão. Gostava tanto de TV que deixou uma cama na sala só para isso, acredita?

Era obstinado, turrão, mas tinha um coração de manteiga. Não aguentava ver a neta chorando. Menos ainda a esposa, a quem chamava de Nega. As netas, os irmãos, os sobrinhos e os parentes de Nova Venécia eram muito queridos.

Sonhava em morar em um sítio, mas enquanto não conseguia teve a casa do jeito que queria: com espaço para fazer churrasco. Chorava, emocionado, sempre que tomava um golinho de bebida; aos prantos dizia o quanto todos eram especiais para ele. “Foi para a família um exemplo de trabalhador, e para mim foi sinônimo de respeito e cuidado! Ele me passava muita segurança e eu sabia que ele me amava”, declara uma das netas, Thaís.

"Lembro dele sempre me dizendo: juízo, minha filha! Juízo!" diz Thaís. "Sempre achei ele lindo. Foi casado com a minha linda vó Cecília, que era delicada e cuidadosa com todos.” Conforme envelhecia, estava ficando o típico vovô: chato, reclamão e muito sincero. Mentira não era com ele não. Era honesto e detestava dever algo às pessoas.

Um exemplo desse lado reclamão de Duda pode ser dado a partir do seguinte episódio, narrado por Thaís: “Em um verão agitado no Prado um grupo de jovens chegou até a sua barraca de caipifrutas e pediu algumas batidas. Feitas as batidas um dos jovens entregou um cartão de crédito em suas mãos. 'Educado' como era, ao ser questionado se a barraca passava cartão de crédito, vô Duda 'passou' o cartão no ferro da estrutura. Não sobrou muito do cartão! A história era motivo de muita risada na família. Se pudéssemos resumir Joel em uma frase seria: 'Alguém com uma sinceridade que falta ao mundo nos dias de hoje!'", finaliza Thaís.

Mas ela ressalta que por trás da braveza havia uma coração mole que amava sua esposa, neta e família mais do que tudo no mundo.

Joel nasceu em Carlos Chagas (MG) e faleceu em Itamaraju (BA), aos 75 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela neta de Joel, Thaís da Silva Brito. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Ozaias da Silva Rodrigues, revisado por Fernanda Ravagnani e moderado por Rayane Urani em 27 de julho de 2021.