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Jose Carlos Pires da Silva

1959 - 2020

Apaixonado por sua “branca linda”, a quem mimava com massagens nos pés e um vestido novo, a cada filho que nascia.

Um menino nascido em Jacobina, interior da Bahia, nunca conheceu seu pai. Aos 3 anos, ficou órfão de mãe. Passou a infância sem ter um lar certo, passando de casa em casa. Até que um familiar, que morava em São Paulo, compadecido da situação do menino, levou-o para morar consigo. Foi então que sua vida começou a mudar para melhor.

Apesar de todas as dificuldades e obstáculos, foi um menino obstinadamente estudioso. Não tinha nem caderno direito e usava o lápis até o final, até ficar só uma pontinha de grafite para escrever. E foi essa força de vontade, essa resiliência que o levaram a concluir o segundo grau, com muito orgulho de seu próprio feito.

Quando tinha 11 anos, participou de um concurso de redação na escola. O tema, por uma ironia do destino era “Dia dos Pais”. Concorrendo com mais 2999 candidatos, José Carlos ficou em segundo lugar. Ganhou até diploma; mas, infelizmente, não tinha a quem entregar. O menino certamente ficou triste; mas não o suficiente para desistir de seus sonhos.

“Era o marido mais apaixonado do universo. Eu e meus irmãos crescemos ouvindo os beijos deles!”, conta a filha Ester, com o coração cheio de amor e gratidão pelos pais maravilhosos que a vida lhe concedeu. Cada vez que sua esposa, Sonia, ficava grávida, José Carlos a mimava com nove meses de massagens nos pés e nas pernas, para garantir que não tivesse varizes. E quando Sonia chegava em casa, com seu bebê nos braços, sempre havia um vestido novo esperando por ela sobre a cama do casal. Foi nesse lar de amor que nasceram os quatro filhos: Ester, Rute, Josias e Joel.

Todos os filhos são músicos! Esse foi um projeto de afeto tecido pelo pai, que incentivou cada um a aprender a tocar um instrumento. José Carlos costumava dizer que “Em casa que tem música, não há mal que chegue!”. Ester toca órgão e piano; Rute toca flauta transversal e órgão; Josias toca tuba e sax; e Joel toca trombone, tuba, sax e ainda por cima é maestro. Os netos estão indo pelo mesmo caminho: Gabriel toca sax, flauta e órgão; Abrahan toca violino e Pablo está aprendendo. Nesta casa, os encontros de família são um verdadeiro show.

Aos domingos, José Carlos sempre ia para o fogão e preparava um café da manhã, no mínimo inusitado: ovos fritos, linguiça, carne cozida, feijão cozido, arroz, bacon fritinho, cebola, farinha de mandioca e, para arrematar, um chá-mate Leão bem docinho. Ester garante que “Nunca na minha vida comi algo mais saboroso! Todos os filhos sabem preparar essa iguaria, é uma tradição familiar!”

José Carlos era chaveiro de profissão. “Daqueles das antigas”, conta Ester. Era tão habilidoso em seu ofício que tinha a capacidade de abrir um cofre, utilizando um estetoscópio. Foi com seu trabalho na loja de chaveiro, trabalho honrado de um homem valoroso e ético, que proveu sua família, criou os filhos e o neto Gabriel, filho que Ester teve ainda na adolescência.

Ela conta que engravidou muito jovem e foi nesse momento de tanta dificuldade que Ester teve a maior prova de amor de Sonia e José Carlos; ela fala com muito afeto “Meu pai e minha mãe eram um só! O que um falava era a palavra do outro”. Pois, foi assim: os pais deram todo apoio para Ester trazer ao mundo seu lindo Gabriel, ajudaram na sua criação e ainda, como uma forma de provar sua confiança no caráter da filha, mandaram-na para estudar na Espanha. Foi lá que Ester encontrou seu verdadeiro amor com quem se casou e vive até hoje. O filho Gabriel também foi viver com a mãe na Europa para que a felicidade da filha de Sonia e José Carlos ficasse completa.

Além de amar a música, José era apaixonado pelos livros. Era um leitor voraz. Tinha também uma alma de artista habitando aquele coração que só fez amar durante toda sua vida. Sonia tem guardado em casa um livro escrito de próprio punho pelo marido amado, são poemas escritos por José Carlos. Ester jura por Deus que um dia vai publicar o livro do pai em homenagem à sua memória.

Não se nasce sabendo ser pai, aprende-se. Desde que se tenha um coração disposto a amar incondicionalmente e se permita que esse coração sofra a estranha metamorfose de se dividir e se multiplicar ao mesmo tempo. Se dividir em amor equânime por todos os filhos e se multiplicar ao ver cada um deles construir sua vida, agir com dignidade e prosperar. José foi para Ester, Rute, Josias, Joel e Gabriel o pai que ele não teve. Em verdade, José foi o pai que toda criança merece ter.

Esse homem honrado, que nunca deixou se abater pelo preconceito e pelo abandono, que perseguiu seus sonhos e só trouxe felicidade e orgulho aos seus, deve estar cercado de anjos músicos lá no Céu, de onde, com absoluta certeza, continua a amar sua “branca linda”, com todo o seu coração.

Jose nasceu em Jacobina (BA) e faleceu em Guajará-Mirim (RO), aos 61 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Jose, Ester Pires da Silva Abdalla. Este tributo foi apurado por Ana Macarini, editado por Ana Macarini, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 5 de agosto de 2020.