Sobre o Inumeráveis

José Dirceu de Pauli

1955 - 2021

Carregava em sua carteira um pedacinho de papel com a frase inspiradora: "Viver de bem e não de bens".

José Dirceu foi um marido zeloso, um pai presente, um avô amoroso, um sogro companheiro e amigo de verdade. Foi um homem de muitas histórias, algumas delas até parecendo escritas antes mesmo de seu nascimento. Teve uma infância difícil, permeada pelas dificuldades financeiras da família.

Caçula de cinco irmãos, foi o tão esperado filho homem após quatro mulheres. Sua mãe, muito católica, havia prometido a São José que se um dia tivesse um menino ele se tornaria padre. Só que esse nunca foi o sonho de Dirceu, que não queria para si uma vida sacerdotal para não prender sua alma livre e leve, que gostava de viver intensamente e a seu modo.

Começou a trabalhar muito cedo — em torno dos seus nove anos de vida. Em sua juventude, cheio de sonhos e ideais, foi morar sozinho na grande São Paulo; mas seu destino não era ficar por lá. Depois de algum tempo, retornou à sua cidade para ajudar os pais e duas de suas irmãs a cuidar de seis sobrinhos, para os quais, em alguns momentos, ele foi uma referência paterna.

Era do tipo que "não deixava para amanhã o que podia fazer hoje" e, assim, curtia pescar, viajar para o Pantanal, cozinhar, ouvir músicas atuais e antigas, cultivar plantas e estar com os amigos e a família.

Gostava de contar que, quando jovem, era muito boêmio e amava sair para noitadas com os amigos; até que, numa destas, encontrou uma amiga do cursinho. Nesse encontro convidou a irmã dela, que ele nem conhecia, para ser madrinha no casamento de um amigo junto com ele. Coisa do destino ou não, depois disso ele iniciaram um namoro e após dois anos se casaram.

A relação dos dois foi baseada no companheirismo, na fidelidade e no amor. Essa união durou quarenta e um anos, entre namoro e casamento, e rendeu frutos: as filhas Isabella, Renata e Giovana, três genros e dois netos. Dizia com frequência que a herança que daria às filhas seria o estudo. Sempre as incentivou a serem perseverantes e a lutarem por seus objetivos. E esforçou-se muito para que se formassem.

Dirceu era técnico em contabilidade, estava aposentado há dezoito anos, mas exercia uma outra atividade que era a sua paixão: possuía uma casa de assados e fazia as melhores carnes e os torresmos mais crocantes da cidade.

Essa ideia surgiu como alternativa possível para complementar sua renda, quando, em 2003, a primeira filha passou no vestibular em outra cidade. Foi aí que a atividade, iniciada como simples tentativa, acabou se tornando um negócio de família, ajudando a custear as despesas das três filhas, que se formaram em Serviço Social, Engenharia de Alimentos e Fonoaudiologia.

Após casar a última delas, em dezembro de 2020, falava cheio de orgulho que havia cumprido sua missão: “quitar as minhas seis promissórias”; e explicava: “Formei as três filhas e casei as três filhas”.

Dirceu, como todos o conheciam, era uma pessoa de sorriso fácil, humilde e com um coração generoso e enorme, que não perdia uma oportunidade para fazer o bem. Um homem que dedicou sua vida toda a fazer bons e verdadeiros amigos, a viver para a sua família e cuidar de seu negócio com muito zelo.

Ele não gostava de despedidas e foi assim que partiu... sem despedidas e, nas palavras da filha Isabella, “deixando uma enorme saudade e um vazio difícil de mensurar, mas temos a certeza de que o laço que nos une a ele é eterno e um dia nosso reencontro será cheio de muito amor e alegria”.

José nasceu em Apucarana (PR) e faleceu em Cornélio Procópio (PR), aos 66 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de José, Isabella Baraldi de Pauli Mainardes Silva. Este tributo foi apurado por Andressa Vieira, editado por Vera Dias, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 6 de setembro de 2021.