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José Francisco da Silva

1948 - 2020

Seria possível escrever um livro de muitas páginas sobre suas histórias de generosidade.

José Francisco, que gostava muito de ser chamado de JP, morava em Viçosa, Ceará. Filho do meio entre dois outros irmãos, era de família simples e humilde. Foi para o Piauí ainda pequeno com seus pais, todos montados em um cavalo; fez desse estado sua morada e lá conquistou muitos amigos.

Ao longo da vida foram muitas as dificuldades. Morou de favor em vários lugares, até conseguir, nos anos 70, ter sua própria residência.

A união com a esposa durou 38 anos. Foi um bom marido, uma pessoa responsável e um avô sem igual para seus cinco netos.

Demonstrava um lindo e sem igual amor por sua esposa e fazia qualquer esforço para vê-la feliz. Pai de sete filhos, perdeu dois ainda crianças. Teve um comportamento exemplar para os cinco filhos sobreviventes. Dois homens: Cleiton e Gleiton, e três mulheres: Cleia, Gleide e Cleiciane, que se formaram em três diferentes profissões: Magistério, Jornalismo e Direito.

José Francisco dedicou a vida para dar o melhor à sua família. Viveu para a esposa, os filhos e netos, tornando-se, aos olhos de todos, o melhor homem do mundo.

Homem sério e de semblante fechado e de coração bom, um poço de generosidade que chegou aos 71 anos com alma de jovem e braços abertos para ajudar. Isso o tornou conhecido como pai de todos. Sua forma de agir fazia com que aqueles que passassem por sua casa se sentissem sempre bem recebidos e acolhidos para receber ajuda, caso precisassem, sem que José Francisco pedisse nada em troca.

Sempre gostou de ajudar as pessoas, mas nunca foi de fazer alarde de sua bondade. Não contava nada para ninguém; mesmo assim, a família ficava sabendo por meio das próprias pessoas agraciadas. E essas são tantas que, sempre haverá uma história para contar sobre sua generosidade, a quem visitar sua cidade.

Forte, trabalhador e lutador, foi um exemplo de honestidade ao criar seus filhos. Teve várias profissões desde a adolescência: foi pescador, encanador, eletricista, dono de bar, mestre de obras e inúmeras outras. Terminou sua carreira numa empresa de pré-moldados, onde tratava todos de forma respeitosa.

Sempre foi bom patrão e gostava de pagar os funcionários em dia. Se fosse preciso, preferia ficar sem nenhum centavo no bolso, mas não deixava de cumprir suas obrigações. Às vezes ficava só com o almoço, porque o pouco que possuía, dividia com as pessoas.

Acordava todos os dias às 5h da manhã, tomava seu café e se dirigia à empresa para esperar os funcionários chegarem. Ali, passava o dia supervisionando o trabalho dos colaboradores, e às 19h já estava pronto para dormir.

Quando, finalmente, conquistou sua aposentadoria, continuou mantendo todos os dias essa mesma rotina e trabalhou até um dia antes de ser internado. Só não o fez no dia em que isso aconteceu porque seu irmão mais velho havia falecido.

Ao partir, teve a honra de encontrar-se com uma das filhas que faleceu vítima de câncer com apenas 27 anos.

No trabalho, o seu cantinho na mesa continua igual, do jeito que ele deixou. A cadeira de onde observava os “meninos” continua no mesmo lugar, como que para assegurar que ele será sempre lembrado todos os dias.

Na família, continua sendo reverenciado pelo amor ao trabalho e pelo amor que dedicou à esposa, filhos e netos.

José nasceu em Viçosa (CE) e faleceu em Piripiri (PI), aos 72 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de José, Gleide Barbosa. Este tributo foi apurado por Larissa Paludo, editado por Vera Dias, revisado por Gabriela Carneiro e moderado por Rayane Urani em 14 de dezembro de 2020.