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José Francisco dos Santos

1959 - 2020

Um aventureiro solitário, defensor da cultura indígena e das tradições do nordeste.

O gosto por fazer trilhas, pelo mar e pela cultura indígena rendeu a José Francisco o título de Cacique da Terceira Idade. Pois, era no contato com a natureza que ele buscava vigor para continuar trabalhando, mesmo após a aposentadoria, como vendedor ambulante.

O cacique aproveitava as horas vagas para visitar, na companhia da filha Angelica, a Cachoeira do Paraíso, em Guaiúba, no Ceará, seu ponto preferido de lazer. Outro passeio frequente era para a aldeia dos índios Jenipapo Kanindé, localizada em Aquiraz, no mesmo estado.

Angelica conta que, nesta aldeia, comandada por uma chefe indígena mulher, ela e seu pai costumavam participar da festa do Marco Vivo, em que os índios celebram seus antepassados com rituais de dança, pintura e comidas típicas.

As missas de cura e libertação estavam incluídas na programação familiar. Juntos, compartilharam momentos de espiritualidade, aos quais ela recorre para dar conta da partida do pai, e da sequência de eventos que atravessaram seu caminho. Mabelle, sua filha de 9 anos, e sua mãe, de quem José Francisco era divorciado, passaram pelo contágio da covid-19 enquanto Angelica enfrentava um processo de separação, após quinze anos de relacionamento.

Com muito medo, desde o início da pandemia, ela se apega na frase de fé proferida pelo cacique naquele momento: "Chame pelos arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael!"

José nasceu em Fortaleza (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 60 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de José, Angelica Alves Santos. Este tributo foi apurado por Malu Marinho, editado por Mariana Quartucci, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 1 de agosto de 2020.