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José Inaudo Gomes do Nascimento

1947 - 2020

“Em Bodocó nasceu, se criou, amou e partiu; que volte agora como luz”

O médico e o carnavalesco andaram juntos, no mesmo caminho. Nascido em Bodocó, no semiárido pernambucano, a 640 quilômetros do Recife, José Inaudo construiu uma vida alicerçada na família, no cuidado e na alegria do Carnaval. O segundo filho de seu Domingos e Dona Tetê (Tereza), teve oito irmãos. Depois de se decidir pela Medicina, a opção foi pela Pediatria. “Salvar vidas foi um dom que Deus permitiu que ele tivesse. Ajudou milhares de crianças em quase 50 anos de profissão”, conta Flavinho; o rapaz teve a felicidade de conviver com o tio, junto de outros 31 primos. “Gostava de juntar os sobrinhos, tomar uma cerveja, tocar violão e cantar”, ele frisa.

O médico pediatra do sertão pernambucano teve cinco filhos, frutos de duas uniões. Carolina, Amanda e Emanuel, do primeiro casamento, e Mariana e Emanuela, filhos gerados com a segunda esposa, Shisneyda. Dos filhos vieram seis netos, Cauã, Luana, Sofia, João, José e Antônio. “Ele era o pai mais dedicado do mundo, vivia em função dos filhos e da família em geral”, diz Flavinho, ressaltando que tanto os filhos quanto os sobrinhos receberam todo tipo de cuidado – da saúde física à ajuda financeira. “Ele era um alicerce muito forte para a família toda; era o primeiro que vinha à cabeça em um momento de dificuldade”.

Além da Medicina, as artes eram a paixão de José Inaudo. O Doutor também era compositor, cantor e admirador das artes em geral. Do amor pela Folia, nasceu um tributo à cidade natal, uma marchinha composta nos anos 1970 que muitos consideram o segundo hino de Bodocó, onde toda a família nasceu e cresceu, e que hoje tem 39 mil habitantes. A leveza do canto e das marchinhas de Carnaval embalava o dia a dia dele. “Ele não perdia os Carnavais do Recife e de Olinda”, lembra Flavinho, enfatizando, no entanto, que o maior legado do tio Zé foram os cinco filhos, o amor, o carinho e a compreensão da vida.

Para a família, ele foi um exemplo. Para a comunidade, uma referência. Do Carnaval, um entusiasta apaixonado e dedicado. Da Medicina, tirou o conhecimento para salvar e fazer brotar vida. Sua partida emocionou milhares de pessoas, em diferentes municípios pernambucanos. Homenagens foram feitas em verso, prosa, cantoria e tributos memoriais.

A irmã Ana Elizabeth, a Lili, escreveu: “Zé Inaudo, meu lindo amigo e irmão. O choque de sua partida brusca nos deixou sem chão, perdidos sem saber a quem recorrer na hora da escuta atenciosa, das doenças acometidas, das angústias. Sua falta também será sentida nos momentos das vibrações na hora do sucesso e nas nossas festas, ocasiões em que contávamos sempre com sua presença, sua música, seu violão, suas poesias, suas reflexões e mensagens, salientando o valor da vida. Como está sendo difícil para todos nós acreditar e aceitar que esse lindo ser humano já não está mais fazendo parte do nosso convívio terreno. Nos acalenta saber e ter certeza de que você plantou árvores frondosas que germinaram frutos e flores lindas”.

Do irmão Inário, a homenagem veio em forma de poesia.

“Hoje a festa cresceu
Tem saudade, tem folia
Alcança da terra ao céu
Para nossa alegria
Tem um Zé cantando lá
Outro Zé cantando cá
Juninho na bateria

Eu pensei sentir tristeza
Mas eu vi ele contente
Ladeado por Tereza
E tudo que é parente
Welington, Dade, Bobosa
Juracy, Gugu, Lolosa
Mandando beijos prá gente

Alguém então se empenha
Em grande apresentação
El Matador, Malagueña
O céu vibrou de emoção
Era o compadre Cardoso
Em dupla com Zé ditoso
Ao som de um violão.

Marca Peixe a dar pinote
Contando uma piada
Lelé sem dar cocorote
Achava muito engraçada
Pedem à família querida
Que permaneça unida
E por Deus abençoada

Eu disse a mim, ora veja!
Que festa tão animada
Senti gosto de cerveja
E cheiro de carne assada
Zé de lá mandou dizer
Ao Zé de cá prá manter”

Zé Inaudo, um homem de sensibilidade poética brotado em Bodocó e com raízes profundas no lugar onde nasceu. “Bodocó foi sempre o lugar encantado de Zé. Era a sua Paris, o seu mundo no mundo. Tudo que ele fazia tinha que passar por Bodocó, mesmo que estivesse distante. Seu coração permanecerá eternamente nas terras do divino São José. Você agora entrou na sua obra, e suas marcas ficarão para sempre em nossos corações”, resume a irmã Lili.

José nasceu em Bodocó (PE) e faleceu no Recife (PE), aos 72 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo sobrinho de José, Luiz Flávio Clementino Galindo Gomes do Nascimento. Este texto foi apurado e escrito por Patrícia Coelho, revisado por Ana Macarini e moderado por Ana Macarini em 5 de maio de 2021.