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Josi Meire Alves Façanha

1974 - 2020

Tinha como lema de vida trabalhar duro e ser feliz; se possível, ouvindo um som pop e Lulu Santos.

Com esses dois objetivos em mente, Meire construiu seus dias com vivacidade. Apesar de, muitas vezes, trabalhar 36 horas seguidas enquanto técnica de enfermagem, nada tirava seu sorriso largo do rosto. Chegando em casa depois do plantão, ela já ia pra cozinha passar um cafezinho pra comer junto com um bom pedaço de queijo – essa era sua combinação favorita.

À mesa, fartura. De comida e de amor. Feijoada, caranguejada, panelada. "A Meire fazia uma caranguejada como ninguém. A gente se reunia para isso. E a panelada dela? Eu amava! Na verdade, eu só gostava da dela", conta Samara, irmã de coração de Meire. Para Meire, cozinhar era uma forma de expressar amor. Sua família e, principalmente, os sobrinhos – uma vez que ela não teve filhos – tinham um lugar especial em volta dessa mesa.

Das conversas despretensiosas com a Meirinha, a Meiroca – como ela gostava de ser chamada – ainda ecoam as risadas dessa que era uma boa contadora de piadas. "Quando você pensa em alguém que trabalha tanto como ela, você imagina alguém meio apagado. Mas, ela era o oposto. Meire era luz. Ela (quase) sempre estava disposta e feliz", diz Samara.

As poucas vezes em que a tristeza chegou, a Meire – fã de pop e Lulu Santos – não a deixou ficar por muito tempo. Para ela, a música parar de tocar não era uma opção. Ainda adolescente, Meire perdeu a mãe biológica. Devido à difícil situação que se instalou em sua família de sangue, Meire foi acolhida pela mãe de Samara. Não demorou muito e ela entrou no ritmo da nova família. Juntas, Meire e Samara construíram laços fortes de irmãs de coração.

Cuidado e acolhimento são palavras que envolvem todas as memórias de Samara em relação à irmã. Ela lembra a vez em que Meire, mais velha do que ela, teve que defendê-la da ira da mãe. "Eu era uma adolescente muito rebelde. Certa noite, fugi de casa para ir a uma festa e voltei só no dia seguinte. Minha mãe estava me esperando muito brava no portão, mas a Meire interveio e me defendeu. Lembro dela dizendo: Calma! Isso é coisa de adolescente".

Esse jeito de defensora, sempre disposta a ajudar as pessoas, contribuiu para a escolha profissional de Meire. Por influência da mãe de coração, fez o curso de técnica de enfermagem e lá se encontrou. "Sabe quando a pessoa nasce para uma coisa? A Meire nasceu para a Enfermagem", diz Samara.

Leal à profissão, trabalhou por 25 anos na mesma empresa. Foi seu primeiro e último emprego. Ela amava trabalhar nessa área e acreditava que, com trabalho duro, seria possível conseguir o que quisesse na vida.

Meire queria ser feliz. E era.

Josi nasceu em Fortaleza (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 46 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela irmã de coração de Josi, Samara Sousa Castro Brandão. Este texto foi apurado e escrito por Michele Bravos, revisado por Ana Macarini e moderado por Ana Macarini em 11 de junho de 2021.