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Juvenal Vicente

1951 - 2020

Bondoso, humilde, humano, Boinho foi um paizão de generosidade no mundo.

“Tio Juvenal não era um tio, era um paizão”, assim o sobrinho Robério se refere ao tio que, segundo ele, salvou toda a família.

Juvenal era daquelas pessoas de segurar a onda e tentar resolver qualquer problema, além de querer ajudar qualquer parente da família, qualquer amigo e até mesmo os desconhecidos. “Aquilo ali era uma rocha!”, diz o sobrinho.

Parecia indestrutível, apesar do diabetes e do cigarro.

Robério brinca dizendo que o companheiro de sua mãe não era seu pai, era esse seu tio, tão especial que sua mãe, carinhosamente, chamava de Boinho. E o diminutivo era o tempero de sua humanidade.

A família era toda de Alagoas, mas a irmã de Boinho casou-se com um cearense e foi morar no Juazeiro do Norte. O marido era vendedor ambulante de discos usados e assim sustentava a família, mas as coisas ficaram ruins e a família estava mal no Juazeiro, quase passando fome. Juvenal mandou buscar a família da irmã, de caminhão, com tudo em cima, e disse: “Venda o barraco e aqui eu sustento vocês. Parente meu não vai passar fome”, conta Maria Caitano, a irmã de Juvenal.

Deu casa, comida e amor. Pagava a feira e ainda ajudava como podia. “Um paizão. Só pai faz dessas coisas”, explica a irmã. “Devemos a ele tudo de bom que aconteceu conosco, porque sua atitude moldou nosso destino e me fez também querer ajudar os outros. Bondade gera bondade. Tio Juvenal era a bondade em pessoa”, diz o sobrinho.

Na casa de Juvenal, no Pilar, onde a família muitas vezes já tinha ido passar as férias, Robério conta que era sempre uma farra, uma festa de verdade, com banhos de rio. Era a melhor aventura para as crianças. Robério rememora: “Ele sempre mandava buscar mamãe para passear. Os filhos dele são meus melhores primos”. Era um sítio com um quintal enorme. “Brincávamos correndo pelas terras abertas, mas alheias. Jogávamos vôlei, chupávamos manga, pitomba, jaca, caju. Fazíamos carros de madeira com latas de óleo, tô no poço... Soltávamos pipa, jogávamos bola... Tio Juvenal fez a minha infância existir”.

Carinhoso e durão, tinha o coração igual ao da Vó Chiquinha, sua mãe, aquela que “rezava três rosários por dia para toda a família. E um rosário são três terços”, relembra Robério.

Boinho era alguém que gostava de ajudar e que ficava feliz com o crescimento e com o sucesso dos outros. O sobrinho conta como Juvenal ficou feliz ao ver o que ele, indiretamente, tinha feito: “Ele chorou me vendo advogado, professor e empregado do departamento jurídico da Caixa Econômica”.

Robério nos diz ainda, entre lágrimas: “Obrigado, meu tio, por atravessar o meu caminho, o nosso caminho. Por ter feito parte de nossa história. Prefiro acreditar que Deus prefere os bons ao seu lado. Tio Juvenal vai fazer falta, muita falta, assim como tantos Joões, Marias, Josefas, Antônios, Pedros, Paulos e tantas outras pessoas; médicos e enfermeiras, que são tão importantes quanto qualquer outro para fazer feliz e para completar nossas vidas. Obrigado, meu tio. Para todos esses que cuidam e sofrem todos os dias pelas vítimas dessa doença terrível, eu peço uma salva de palmas”.

Juvenal nasceu em Pilar (AL) e faleceu em Maceió (AL), aos 69 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo sobrinho de Juvenal, Robério César Camilo dos Santos. Este tributo foi apurado por Malu Marinho, editado por Sandra Maia, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 6 de julho de 2020.