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Leonilia da Costa Araújo Monte

1930 - 2020

Tinha a mania de viver e seu carisma era contagiante.

Leonilia ou Dona Bia, como todos a chamavam, foi uma mulher muito especial, que valorizava muito a família. Depois que aprendeu a dominar o celular, não tinha e nem dava mais sossego. Nem a ela nem a ninguém. Todos os dias ligava para seus netos, filhos, irmãos e amigos. Ligava para saber como estavam, dar conselhos e dizer que os amava. “Eu te amo” era uma frase que ela gostava muito de dizer para todas as pessoas que ela queria bem — e, ela queria bem de verdade.

Dona Bia era boa de conversa e fazia isso como ninguém. Bastava um minuto para ela já inventar algum assunto e daí já puxava outro e mais outro; e com isso, lá se ia uma tarde inteira... Fazia alguma piada e era impossível a qualquer pessoa ficar indiferente ao que ela dissesse. Leonilia era uma mulher de muita presença, muito vaidosa, que sempre estava com um belo batom vermelho, sempre muito perfumada e com o cabelo sempre muito bem-arrumado.

Como toda pessoa do interior, gostava de comidas que lembravam sua infância e que, como dizem os sertanejos, dão “sustância”: galinha caipira, feijão-de-corda, comida com caldo (de carne, de peixe...). A neta conta que Dona Bia “nunca gostou das comidas que eu fazia porque dizia que eram coisas sem 'sustância' ou muito complicadas; e que meu namorado iria morrer de fome, porque meus pratos esquisitos não sustentavam ninguém”.

Não se poderia dizer que Dona Bia não tivesse defeitos. Não era fácil ela se agradar à primeira vista de alguém, mas também quando gostava, a pessoa sentia-se especial, e ganhava uma aliada pra toda a vida. Mas, se ela não se agradasse, era melhor sair de fininho, porque Dona Bia não era dada a falsidades. Também não levava desaforo pra casa — se não gostasse de algo, deixava isso bem claro. "Era 'bonequeira', como se diz aqui no Ceará”, conta a neta Wanessa. “Botava boneco onde estivesse”, ou seja, reclamava e rodava a baiana, não importando onde estivesse.

Contudo, conta Wanessa, “não me lembro de alguma bronca dela que tenha durado tanto tempo, e que não tenha sido seguida de um largo sorriso”. Dona Bia tinha tanto amor pra dar, que até transbordava.

De seu casamento com Seu Raimundo, teve quatro filhos (dois homens e duas mulheres), oito netos (três homens e cinco mulheres), oito bisnetos (cinco mulheres e três homens).

Quando aprendeu a utilizar um aplicativo de mensagens pelo celular, seu dia passou a ser dividido em fazer crochê, assistir às novelas, enviar áudios e ver as fotos e os vídeos dos netos e bisnetos. Quando viajava, conta Wanessa, “sempre fazia videochamadas e conversávamos para matar as saudades. De vez em quando, eu gravava alguns vídeos com ela, postava na internet e lia os comentários que as pessoas faziam”. Apesar de não entender muito, ela passou a gostar muito desse mundo virtual, mas dizia que fazia porque gostava de falar com as pessoas. Para a neta Wanessa, a avó “se animava com as minhas loucuras”.

“Tudo aconteceu muito rapidamente”, conta Wanessa, “Não tive tempo de me despedir antes de ela ser internada”. A neta diz que queria ter tido mais tempo com a avó, queria mais um abraço, “queria poder ouvir mais alguns dos conselhos dela”. Wanessa diz ainda: “A saudade bate forte e, às vezes, eu fico confusa, sentindo tanta dor. Mas, as lembranças que ela deixou, sua alegria e sua força me inspiram todos os dias. Te amo, dona Bia. Te amo, vó”.

Leonilia nasceu em São Luís do Curu (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 84 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela neta de Leonilia, Wanessa Monte Ferreira. Este tributo foi apurado por Sandra Maia, editado por Sandra Maia, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 22 de junho de 2020.