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Luiz Carlos da Silva

1947 - 2020

Tinha mania de organizar tudo no seu tempo, menos amar, pois isso ocupava todas as horas do seu dia.

"Tinha a expressão muito séria, quase carrancuda, o que fazia com que algumas pessoas tivessem receio dele, do jeito dele, mas, por trás daquele cenho franzido, havia um homem gentil e doce que ensinou aos filhos tantas coisas, todas importantes, no seu tempo e lugar: ensinou a paciência e a alegria pelo simples e corriqueiro, ensinou como dirigir, nadar e boiar... Quase posso ouvir aquela voz a dizer: 'sempre seja honesta e pense sempre no próximo'.” Assim era Luiz Carlos, conta a filha Sabrina.

Tinha 6 anos de idade quando começou a trabalhar catando batatas. De família humilde, todos trabalhavam muito e sempre tiveram só o básico. Eram cinco irmãos, muito unidos: três homens e duas mulheres, as quais saíram de casa muito cedo para casarem, o que as distanciou dos demais. Futuramente, Luiz Carlos consertaria panelas para os vizinhos: queria comprar um cavalo para facilitar suas idas e vindas, pois não tinham carro. Por algum tempo, estudou em colégio de padres, mas decidiu tornar-se contador, profissão que exerceria por quarenta anos até se aposentar.

Habilidoso com as mãos, Luiz, nas horas vagas, fazia de tudo. Gostava de marcenaria e carpintaria e consertava as coisas em casa: panela, chuveiro, liquidificador — e tudo que precisasse de reparo. Divertia-se trabalhando com madeira e, com ela, fez mesa para a casa, um vaso para o consultório da filha médica, cercados para as plantas da esposa Néia e até um carrinho de rolimã para o filho.

Muitas de suas habilidades Luiz fez questão de ensinar à filha Sabrina, como trocar a resistência do chuveiro, e dizia: "você tem que saber fazer de tudo um pouco, para ensinar aos outros e também para ninguém enganar você". Além dos trabalhos manuais, havia outras paixões que compartilhava com a filha: consumia livros, jornais, periódicos e documentários, em especial sobre a Segunda Guerra Mundial. Tudo o que liam ou assistiam juntos era material para longas conversas, nas quais expressavam opiniões e pontos de vista sobre o assunto.

Luiz era extremamente organizado e metódico. Cada ferramenta de trabalho tinha que estar no seu canto, e, na sua escrivaninha, tudo tinha lugar cativo, especialmente as canetas (de todas as cores) e os bloquinhos de papel, onde costumava anotar tudo. Já os documentos eram todos separados por pastas, cor e data. Graças à sua organização, a família nunca teve problemas para encontrar qualquer documento.

Não esquecia nada. Sabia de cor todas as datas e comemorações, como os aniversários de cada um, e os dias com contas a pagar. Às vezes, esse perfeccionismo trazia certa dose de sofrimento a ele, pois o perfeccionista não aceita o erro, e ninguém é perfeito.

No período de adolescência dos filhos, nem eles nem a esposa entendiam o motivo de tudo aquilo, mas o tempo e a maturidade ensinaram-lhes que foi graças ao preciosismo de Luiz que os filhos se tornaram adultos honestos, corretos e responsáveis com seus prazos e compromissos.

Ele e a esposa Néia tinham o hábito, ao entardecer, de inquirirem um ao outro sobre todos os acontecimentos do dia de cada um, a fim de se assegurarem de estar fazendo a coisa certa. Sabrina lembra-se de ouvi-los trocando opiniões, na hora de dormir, sobre as ocorrências, e essas conversas traziam mais confiança no que estava por vir. Luiz e Néia eram eternos namorados, trocavam presente em todas as datas comemorativas, como aniversários de casamento, Dia dos Namorados e outros eventos.

Discreto, ele nunca se intrometeu na vida de ninguém. Amava reunir a família num churrasco, ouvir “modão” sertanejo, ver todo mundo rindo e dançar com a esposa e as sobrinhas. Fazia sempre um joguinho na loteria; quem sabe, se acertasse os números, a esposa não precisaria trabalhar tanto, e ele poderia montar uma clínica para os filhos.

Luiz foi um exemplo de ser humano. Apesar de todas as suas dificuldades e todos os problemas, ensinou aos filhos valores como a honestidade, o trabalho, a solidariedade e a importância de ajudar o próximo. Com ele, Sabrina aprendeu "a ser independente, a amar leitura e a ver como, mesmo num mundo cheio de duros caminhos, você pode facilitar as coisas para alguém e ver essa pessoa feliz”.

Sabrina sempre se lembrará dos momentos que passaram juntos, como do dia em que ele a colocou dentro do fusca amarelo e falou: “vamos aprender a dirigir”. Ela ficou radiante, porque gostava de ser independente, e sua alegria intensificou-se quando o ouviu comentando com a mãe: “Néia, a Sá pegou aquele volante e os olhinhos dela brilharam”. Também ficarão na memória a vibração e a algazarra que faziam ao assistirem aos jogos do Palmeiras, assim como as lágrimas dele, iguais às de uma criança, no dia em que ela contou-lhe sobre seu câncer na tireoide.

Ele foi esse homem que ficava desesperado quando os filhos adoeciam e até paralisava quando os via sofrer. Para eles, foi o amigo querido, o amado pai e o eterno herói.

Luiz nasceu em Osvaldo Cruz (SP) e faleceu em Pacaembu (SP), aos 72 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela filha de Luiz, Sabrina Santini Silva. Este tributo foi apurado por , editado por , revisado por Débora Spanamberg Wink e moderado por Rayane Urani em 30 de setembro de 2021.