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Luiz Marcello de Menezes Bittencourt

1952 - 2020

Queria sempre saber o que você pensava, achava e sentia...

Que pessoa maravilhosa foi Luiz. Acima da média em termos de inteligência e paciência. Exemplar como profissional na carreira que escolheu e amava. Um companheiro de todas as horas. “Só agradecer que ele fez parte da minha vida”, diz a esposa Marisa Minhoto.

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"O Marcelinho (Luiz Marcello, segundo D. Aparecida, sua falecida mãe, carioca da gema) era um jornalista fantástico, ganhador do Prêmio Jabuti, de uma sagacidade atroz.

Mas quando o conheci, não sabia nada disso. Era um dos melhores amigos do meu companheiro, Wagner de Paula. E começamos a construir uma ligação a partir desse momento.

O que conheci dele foi o humano.

Quando o vi pela primeira vez, achei sua estética muito, muito peculiar: a barba cortada num estilo Chanel exato com o cabelo basto, na altura do peito. Ambos grisalhos. O cabelo preso para trás numa larga tiara de aço escovado. E na hora que você olhava seus olhos, ahhhhh ... De um brilho e inteligência.

E não falasse bobagem, pois ele soltava um "Então, amiguinho" ou um "Então, meu bem" e nenhum argumento tosco resistia.

Entrevistou Saramago, entrevistou Renato Janine, Marilena Chauí.
Tinha uma voz anasalada, quase fanha. Fumava quatro maços de cigarro por dia, que baixou para dois. Era radialista, quase perdeu a audição. Olha só. Adorava um bom uísque e um bom papo.

Ao entrar na casa dele você só via livros, livros, livros e mais livros. A cada degrau das escadas, nas estantes, distribuídos por seu quarto, no quartinho ao lado. Pilhas, pilhas e pilhas.

Inepto no lidar com tecnologias, aí o seu amigo Wagner ia ajudá-lo a lidar com elas. Duas operadoras de internet (se uma desse pau, tinha a outra). Duas máquinas poderosas e falava: "Wagnão, meu amigo, não quero perder tempo com isso. Quero chegar no material que quero".

E tinha, viu? Ao editar seu programa da Rádio USP, o Biblioteca Sonora, tinha o esmero de ler o livro do entrevistado, escolher a música perfeita para o tema.

Foi internado com uma infecção brava. No começo resistiu, arrancava todas as sondas e tubos e medicamentos, teve que ser imobilizado. Disse ao único irmão: "Você foi precipitado ao me internar". Pegou Covid-19 no hospital. A infecção foi curada, mas o vírus pegou seu pulmão, seus rins. Diálise. Respirador. Não deixaram que ele visse nenhum rosto amigo. 40 dias. Sozinho. Sedado. Sem ninguém. Ninguém merece estar tão sozinho nessa hora.

Foi-se um luminar."

Glória Modesto, admiradora, amiga e a pegadora de gelo para o uisquinho com os amigos.

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Marcello era superalegre, devorava livros e era muito culto. Mas sua cultura não era daquelas chatas e esnobes, era uma cultura de saber muito sobre vários assuntos.

"Sempre enchia meu coração de alegria quando sabia que iria encontrá-lo! Ao estar com ele, as horas não passavam... Ele contava histórias e falava dos livros que leu. Certa vez, nos encontramos para almoçar e ele me contou toda a história do Jardim da Luz, em São Paulo. Eu adorei, tentei anotar algumas curiosidades, mas ele disse: 'Eu te dou o livro que li sobre isso, não precisa anotar!' Este era Marcello: generoso, culto e um grande amigo!", lembra seu amigo Decio Moreira.

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Possuía uma densidade tal, que transformava o espaço-tempo à sua volta.

A Covid-19 o levou o queridão. "Ele era amigo dos meus pais desde que nasci, um amado. Ia em casa sempre, nos rolês todos do meu pai e da minha mãe e quando entrei na ECA, cruzava com ele quase todo dia, porque ele era diretor da rádio USP. O Ric (amigo dele e do meu pai) disse que com os óclinhos redondos que ele usava parecia um bicho grilo saído das tirinhas do Angeli. Eu ousaria dizer: uma mistura de Rê Bordosa com Obelix, caído num pote de poção de amor e carinho, porque juro, ele era muuuuuito doce e querido." Inteligentíssimo, engraçado e de sacadas geniais, comandou o Biblioteca Sonora na Rádio USP, um programa dedicado à literatura, por anos. "Vou sentir saudade da voz rouca dele me chamando de “Paulinha”.

Amiga e jornalista, Paula Sacchetta.

Marcello era radialista, mestre em Rádio pela ECAUSP. Por três décadas deixou seu DNA na Rádio USP 93,7, ou melhor a Rádio ficou com seu DNA, inclusive no período em que foi Diretor da Emissora. Com certeza lá tudo será AMB e DMB, antes e depois de Marcello Bittencourt. Como pessoa era exigente com o trabalho, generoso com os outros, carinhoso com os amigos, tudo isto com uma fina ironia que nos mantinha sempre alerta. A sua química pessoal na criação dos programas servia de base adquirida na Sociologia, depurada pelo trabalho nas grandes editoras de livros por que passou e é claro, verticalizada pelo Mestrado em Rádio na ECA. Porém, o seu tempero mais peculiar era a sagacidade adquirida pelo sem número de livros, shows, espetáculos teatrais, discos, viagens internacionais e um inestimável amor e saber pelo meio do rádio. Tudo catalisado pelo gosto e convívio com amigos criativos que rendiam noites de conversas que iam do futebol, ao político, até à colonização de Marte. Marcello possuía uma densidade tal, que transformava o espaço tempo à sua volta.

Irmão de coração, Wagner de Paula.

Luiz nasceu em São Paulo e faleceu em São Paulo, aos 68 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Rayane Urani, a partir do testemunho enviado por esposa e amigos Marisa, Glória, Décio, Paula e Wagner, em 3 de maio de 2020.