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Maria Alice da Conceição

1931 - 2020

Dona Euricine sempre levava um dinheirinho a mais no bolso para fazer agrados.

A vida de Maria Alice foi demarcada pelo trabalho. Em algumas situações por necessidade de cuidar da vida. Noutras, de fazer nascer vidas. E também na busca de melhoria da qualidade de vida.

Dona Euricine, como era chamada por todos, nasceu e viveu por muitos anos na localidade maranhense de Colinas. Duma família numerosa de 11 filhos, foi uma das sete Marias da casa, sendo uma das mais novas. Seguindo uma prática comum na região, os mais velhos sempre ajudavam as mães nos cuidados com os mais novos.

Foi também em Colinas que se casou com o senhor José Costa, com quem teve oito filhos, que geraram 12 netos e cinco bisnetos. A filha Viviane explica que, devido a algumas características do pai, Maria Alice “foi pai e mãe”. Na lida com os filhos, sempre teve muito trabalho, pois cuidou praticamente sozinha de todos. Neste tempo em que o trabalho significava cuidar da vida, Maria Alice se desdobrava para manter a casa, a alimentação, e a magia da infância dos filhos.

Nos momentos em que ia lavar roupas, muitas vezes levava as crianças para tomar banho no rio Itapecuru. A alegria de brincar e se refrescar na água corriam em paralelo ao ato de cuidar das roupas de todos.

Maria Alice gostava de Carnaval. Todo ano, um pouco antes da festa, comprava tecido e fazia roupas iguais para todos os filhos. No dia do baile vespertino, a criançada se divertia brincando no Clube da cidade. Animada e com energia de sobra, ela também se envolvia com os festejos carnavalescos e chegou a ser rainha de Carnaval de Colinas.

Na memória da filha Viviane, estão vivos os retalhos de tecido caindo da máquina da mãe. Com eles, as filhas se juntavam para produzir roupinhas de bonecas feitas com garrafas. O cabelo das personagens era feito com cabelo retirado das espigas de milho que vinham do quintal.

Ainda sobre a costura, importante dizer que a habilidade de costurar foi aprendida na casa materna. Todas as filhas eram habilidosas na arte de coser. Maria Alice chegou a ganhar algum dinheiro com acessórios infantis tais como bolsas, lacinhos e tiaras. Durante a pandemia da Covid-19, produziu máscaras de proteção individual.

A segunda dimensão do trabalho na vida de Maria Alice é o fato de ter sido parteira. Com o tempo foi aprendendo as maneiras de ajudar as parturientes da família e outras mulheres de Colinas a darem à luz a seus filhos. Pelas mãos de Maria Alice muitas crianças vieram ao mundo. Viviane recorda que muitas vezes viu a mãe sair de madrugada, apressada, para fazer partos na casa de outras pessoas, uma vez que ganhou a confiança e respeito na redondeza. Muitos dos que fez nascer tinham Maria Alice como uma segunda mãe. Ela os viu crescer e manteve com eles uma relação de muito afeto. Um detalhe importante é que Maria Alice nunca cobrava pelo trabalho de parteira. Na prática, as famílias assistidas por ela faziam questão de dar alguma contribuição. O certo é que Maria Alice nunca fez os partos pensando em ganhar com essa habilidade.

Voltando à linha do tempo, depois da morte do senhor José, pensando em dar uma melhor educação e qualidade de vida aos filhos, Dona Euricine decidiu mudar-se para Imperatriz. Algumas de suas irmãs já moravam na cidade, o que contribuiu para que tomasse a decisão. Cabe ressaltar que mesmo com a mudança ela seguiu realizando o trabalho de parteira.

Foi neste contexto que surgiu a terceira dimensão do trabalho na vida de Maria Alice: a possibilidade de melhorar de vida. Inicialmente, conseguiu um emprego de lavadeira num hospital da cidade. Nesse movimento, comentava com alguns médicos que atuava como parteira. Em algumas situações chegou até mesmo a auxiliar em alguns nascimentos no hospital.

Percebendo a habilidade e o potencial de Maria Alice, alguns médicos a incentivaram a estudar e tornar-se técnica em enfermagem. Inicialmente, ela precisou fazer supletivo, pois tinha pouco estudo. Em seguida, fez o curso de Técnico em Enfermagem. Algum tempo depois surgiu a oportunidade de ser nomeada e depois efetivada como funcionária pública, trabalho que exerceu até se aposentar no hospital. Depois da aposentadoria ainda trabalhou por um tempo numa clínica. Durante todo esse tempo, nunca deixou de exercer a atividade de parteira e também em Imperatriz fez muitas crianças nascerem. “Aqui no Maranhão a figura da parteira é muito comum. Muitas mulheres, por necessidade ou preferência, tem os filhos em casa”, explica a filha Viviane.

No universo familiar, a capacidade de acolher e cuidar de Maria Alice também esteve presente. Ela nunca se recusou a ajudar quando algum dos filhos ou netos precisou de alguma proteção, algum conselho ou até mesmo de ajuda financeira. Como uma referência de segurança, em diversas situações ela dizia “pode seguir que se precisar estou aqui para te amparar”.

Foi o que ocorreu com a neta Jussana que foi acolhida pela avó durante sua gravidez. Da gestação nasceu a bisneta Alice, que sempre morou com Dona Euricine. Alice guarda uma gratidão muito grande pelo cuidado que recebeu da bisavó, que possibilitou a ela crescer, estudar e tornar-se advogada.

Um último aspecto não pode deixar de ser dito. Dona Euricine foi uma pessoa de temperamento forte, e uma mulher de poucas palavras. Se ela gostasse de alguma coisa dizia que gostava. Contudo, quando algo a desagradava ela logo pontuava, ficava zangada e brigava pelo que acreditava. Não era do tipo de fingir calma.

De outro modo, ela trazia consigo o hábito de buscar agradar as pessoas. Sempre levava consigo um dinheirinho a mais para o caso de querer fazer um agrado a alguém. Para uns comprava alguma lembrancinha, para outros passava algum valor em dinheiro quando percebia que precisava.

Quando dependia de pequenos serviços de outra pessoa, procurava pagar sempre um pouco a mais, em reconhecimento à ajuda recebida. Até durante o período em que ficou internada, sempre teve guardado em um bolso de seu vestido algum dinheiro, e algumas vezes oferecia um lanche a membros da equipe de saúde.

Com os filhos era a mesma coisa. A filha Viviane lembra com carinho de uma vez quando, próximo ao Dia das Crianças, Maria Alice deu um dinheiro para que as filhas fossem comprar seus presentes. Maria Alice, em função de sua rotina atarefada, preferia que elas mesmas fossem e escolhessem sozinhas algum brinquedo.

Dona Euricine, uma mulher que nunca recusou o trabalho e fez dele fonte de vida, segue viva na memória dos filhos biológicos e de muitos outros que como parteira fez nascer.

Maria nasceu Colinas (MA) e faleceu Imperatriz (MA), aos 88 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Maria, Viviane da Conceição Mendes Pereira. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Ernesto Marques, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 8 de setembro de 2021.