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Maria Aparecida dos Santos

1951 - 2021

Do manjar de ameixas natalino ao café de todos os dias, ela temperava cada prato com amor.

Dona Maria Aparecida, a Cida, tinha um olhar reconfortante, que dizia mais do que as palavras. O neto Carlos conta que viu acolhimento nos olhos da avó quando ele assumiu sua sexualidade. "Era como se ela dissesse: 'para mim, é a mesma pessoa, nada mudou'. Ela não julgava", afirmou. Os olhos esverdeados iluminavam todos os outros familiares também, a quem ela se dedicou com amor por toda a vida.

Amava uma boa comida, com exceção da abóbora. O sabor desse alimento lembrava-lhe das primeiras lutas da vida, pois foi, durante muito tempo, a única coisa que havia para comer na sua infância, primeiro na cidade onde nasceu e, depois, em Taubaté, para onde se mudou. Ela começou a trabalhar bem cedo para vencer as dificuldades financeiras que tinha.

Em casa, encontrava afago para as batalhas na mãe, Jacó, e nos irmãos. O amor também veio ao seu encontro quando a família mudou-se para Mogi das Cruzes, onde Sebastião, seu futuro marido, morava. O casal namorou por um breve período e permaneceu junto até o último dia de Sebastião, por trinta e nove anos.

Os dois construíram a casa da família em um terreno de Sebastião. Lá era "a casa da vó", onde aconteceram os momentos mais importantes da vida de dona Cida: vários partos, algumas perdas gestacionais, o crescimento dos filhos e depois dos netos e bisnetos. Sebastião ficou ao lado de Cida em todos esses momentos. De acordo com o neto, quem olhava para o casal logo percebia: foram feitos um para o outro. Ela gostava de fazer tudo acompanhada de sua família — inclusive assistir ao Sílvio Santos e ir para o sítio.

Dona Cida tinha uma mão abençoada para cozinhar. O cheiro e o sabor do café dela rescendiam na casa. O macarrão e a maionese tinham o aroma e o gosto inconfundíveis de comidas feitas com amor, e o manjar de ameixas tornou-se o prato tradicional do Natal na família. As filhas receberam as habilidades culinárias como herança.

Depois que seu Sebastião faleceu, três anos antes dela, Cida afastou-se um pouco da cozinha. O neto acredita que cozinhar devia lembrar-lhe muito aquele amor da vida inteira. Enquanto viveu aqui sem ele, dona Cida visitou o cemitério todos os dias, querendo ficar próxima dele.

Nos últimos anos, dona Cida pensava incomodar devido aos cuidados que a idade e as doenças demandavam. Mas a família cuidava dela com amor e gostava de estar próxima a ela. "Faz falta em todo minuto, desde o cheirinho de café da manhã até as caretas para o filé de frango. A proximidade com ela no nosso dia a dia tornou-a alguém inesquecível, porque tudo a envolvia", fala, com saudades, Carlos.

Todas essas memórias fazem de dona Cida eterna, viva no coração de cada pessoa que ela tanto amou.

Maria nasceu em São Luiz do Paraitinga (SP) e faleceu em Mogi das Cruzes (SP), aos 70 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo neto de Maria, Carlos Alves Ferreira Junior. Este tributo foi apurado por Larissa Reis e Ana Helena Alves Franco, editado por Talita Camargos, revisado por Débora Spanamberg Wink e moderado por Rayane Urani em 16 de outubro de 2021.