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Maria Augusta de Abreu Aragão

1955 - 2020

Gostava da casa cheia. Era conhecida por dar conselho de graça.

Contar a história de Augusta é evocar o nome de cada pessoa que por ela tem gratidão. Como falar de Augusta sem falar dela como vó? Como mãe? Como esposa? Como irmã? Como vizinha? Sobretudo: como conselheira? Augusta era conhecida por dar conselho de graça. Teve quem só aceitou pedido de casamento depois da aprovação da dona Augusta. Teve quem só viajou depois do consentimento da dona Augusta. “Muitos iam em casa pedir conselho pra mãe”, lembra Danielle, a filha. “Seu gênio forte, dizia logo: "Vai dar certo!" ou "Não dá pra tua vida. Ti sai!”.

Augusta nasceu em Alto Longá (PI), isso diz muito sobre quem ela foi e, principalmente, sobre sua maior virtude: a humildade. Afinal, a cidade é conhecida, sobretudo, pela cultura religiosa; e tem como marco fundador o aparecimento da imagem daquela que seria reconhecida como Nossa Senhora dos Humildes. Augusta sabia da importância de onde nascera. Por isso, defendia com unhas e dentes: “Minha terra é minha origem. De lá que vem meus princípios!”. Para honrar o legado da sua terra, assim se fez Augusta: uma mulher forte e atenta a qualquer necessidade. Um copo d’água. Um prato de comida. Um calçado. Olhar crianças… Augusta amava cuidar.

Quando o assunto era criança, Augusta tinha toda paciência do mundo. Passou a adolescência nas casas das irmãs mais velhas, cuidando dos sobrinhos. Na irmã Dica, adorava ouvir seus cantores favoritos: Roberto Carlos, Diana, Renato e seus Blue Caps. Observando a irmã, aprendeu a costurar. Assim, descobriu a paixão que perdurou a vida: ouvir música enquanto costurava. Mas só quando não estava cuidando das crianças, claro! O dom de cuidar a levou para longe. A convite de uma família, se mudou para São Luís (MA), para ser babá. O seu amado Piauí... só visitava nas férias. Mas prometia: “Um dia ainda volto para aquela terra dos miolos cozinhando!”.

Nunca voltou porque em São Luís formou família. Seguiu a orientação do pai: “Casamento deve ser rápido. Quando encontrar um homem honesto, direito e humilde, não demore!”. Assim fez. Um mês depois de conhecer Raimundo Aragão, um homem perdidamente apaixonado por ela, casou-se. Da união, dois filhos: Danielle e Daniel. Mais tarde, quatro netos: Carla Bianca, Carinne Vitória, Davi Lucas e João Miguel. Augusta foi uma avó cheia de critérios, mas diante de qualquer pedido dos netos… podia tudo!

Tem mais: as vizinhas favoritas eram duas. A Lurdes, que emprestava a máquina de costura, e a Joelma, que vendia Avon. Amava a cunhada Suely. Dona Cléo, Maria e Diana eram suas licutes. Dona Laura era quem mandava peixe assado. E o Valdo? O genro perfeito. Era amigo, confidente. Passavam horas conversando… Augusta era devota de Nossa Senhora Aparecida e do Padre Cícero. Todo domingo, assistia a missa do Padre Marcelo Rossi na tevê. São tantas gentes mais…

Para a filha, Danielle, falar da mãe é lembrar de todos que ela ajudou. “Minha mãe praticou aquilo que ela sequer sabia ter nome: empatia. Pessoa como ela está em extinção. Ainda não vi coração igual por aqui, não!”.

Maria nasceu em Alto Longá (PI) e faleceu em São Luís (MA), aos 64 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Maria, Danielle Abreu. Este texto foi apurado e escrito por Carolina Margiotte Grohmann, revisado por Joselma Coelho e moderado por Rayane Urani em 23 de maio de 2020.