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Maria Cicera de Oliveira

1949 - 2020

Cicera tinha um pé de amora. Toda vez que brotava, fazia questão de enviar as frutinhas pra sua neta.

Muito espontânea, alegre, religiosa e cheia de vida. Farrista, gostava da folia e amava sorrir. Quando aprendeu a mexer no WhatsApp ficou impossível fazê-la parar de mandar imagens com mensagens. Intensa como era, Cicera sabia aproveitar as pequenas coisas.

Cicera tinha plantado um pé de Amora. Toda vez que brotava, mesmo com suas limitações, fazia a maior questão de ir tirar e mandar para a sua neta, Maria Clara, que morava há 300 quilômetros. Até o chá da folha mandava. Certo dia, enviou junto com um bilhete que até hoje sua neta guarda com muito carinho. “Ela escreveu que era para eu olhar quais eram as boas e as velhas, porque tinha um tempo que ela vinha colhendo e misturou tudo. Hoje, eu entendo que era para tê-la bem e perto de mim, sempre”, relata sua neta.

Brincalhona e contadora de história, o que mais Cicera deixava a neta fazer era maquiá-la. Risos e altas gargalhadas, chamava Maria Clara de “minha galega maluca”. Felicidade transbordava.

“Eu cresci com ela distante, mas foi como se tivesse ela perto de mim. Eu tinha cuidado, carinho e um amor muito grande. Ela era tão teimosa. Mas eu sei que, de algum lugar, ela está rindo das minhas palhaçadas. Toda vez que eu olhar para o céu, vou lembrar que estará sempre junto a mim”, conta a neta.

Maria nasceu em Delmiro Gouveia (AL) e faleceu em Maceió (AL), aos 71 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela neta de Maria, Maria Clara Almeida. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista João Henrique Siqueira, revisado por Luiza Carvalho e moderado por Rayane Urani em 4 de junho de 2020.