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Maria de Fátima Rocha Nascimento

1963 - 2020

Uma mulher amável, de ternura constante em seu sorriso doce e acolhedor.

Este é um perfil elaborado por sua prima Regina Célia com a ajuda de seus amigos e familiares:

Um sorriso que nunca vai se apagar.

Fátima Rocha, pró Fátima, Fafá, Risadinha, Fatinha, Papa, Papinha. Era assim que Maria de Fátima Rocha Nascimento, falecida aos 57 anos, no dia 28 de julho, uma quinta-feira, em Lagarto (SE), era conhecida. Mas, acreditem, nada melhor a identificava que sua mais singular característica: o sorriso largo e cativante, que entregava a alegria e o jeito de ser de uma pessoa sempre disposta a ajudar.

Ela nasceu na Maternidade Tsylla Balbino, bairro da Baixa de Quintas, em Salvador (BA), no dia 24 de maio de 1963, uma sexta-feira. Seus pais, o comerciante João Ribeiro do Nascimento (1913-1990) e a dona de casa Josefa Rocha Nascimento (Nainha), são sergipanos de Lagarto, município a 75 km da capital, Aracaju. Fátima é a segunda filha. O mais velho da prole é Jorge Luís. Os mais novos, Sandra e Ricardo.

Geminiana típica, tinha um espírito vigoroso e cheio de energia, gostava de andar, não conseguia ficar parada. Parecia ser duas ao mesmo tempo. Estava sempre pra baixo e pra cima, ainda que, nos últimos tempos, enfrentasse certa dificuldade de locomoção devido ao excesso de peso.

Amava Chico, o Buarque de Hollanda. Sabia de cor todas as suas canções. Não por acaso, recebeu uma belíssima homenagem póstuma do poeta lagartense Assuero Cardoso: um texto que ressalta suas principais características, construído a partir de títulos de composições da obra buarquiana. Com certeza, de onde está, ela deve ter aplaudido com entusiasmo o merecido tributo.

Tinha algumas manias. Uma delas, a de guardar papéis na bolsa. Cupons fiscais, invólucros de doces, panfletos, bilhetinhos, recibos... Qual a razão? Vai saber! Como diz a antiga canção de Flávio e Celso Cavalcanti, imortalizada na voz de Nelson Gonçalves, “mania é coisa que a gente tem, mas não sabe o porquê”.

Sua principal diversão? Jogar buraco. Adorava disputar partidas com amigos. Varava a noite. Não gostava muito de festas nem de aglomerações.

A vida amorosa de Fátima não foi muito intensa. Enquanto suas amigas paqueravam, namoravam, noivavam e casavam, ela ficava em casa e cuidava da mãe, dona Josefa, hoje com 93 anos, mas desde cedo acometida de vários problemas de saúde – entre os quais, a perda total da visão e progressiva deficiência auditiva. Por esse motivo, Fátima abriu mão de alguns projetos pessoais. Casou-se quase aos 50 anos, com o marchante César Ribeiro. O romance foi meteórico: pouco tempo após se conhecerem, já estavam casados de papel passado. O casamento tardio lhe privou de ser mãe, mas o amor que ela devotava aos sobrinhos e aos alunos parecia preencher possíveis lacunas da maternidade não realizada.

Ninguém sabe ao certo como surgiu o apelido “Papa” ou a variação usada no diminutivo, “Papinha”. Familiares e amigos mais próximos aventam a hipótese de que o “batismo” teria sido feito por um dos sobrinhos pequenos ou um de seus afilhados. De acordo com esse raciocínio, as crianças não conseguiam pronunciar o nome “Fátima” e falavam “Papa”. Em tom de brincadeira, alguns dos adultos passaram a imitar o jeito de falar das crianças... e o apelido acabou pegando.

A capacidade de adaptação do geminiano se manifesta em Fátima nas várias mudanças vivenciadas pela família. Seu João e dona Nainha se estabeleceram em Salvador em duas oportunidades. A primeira, no finalzinho dos anos 1950; a segunda, do final da década de 1960 até o ano de 1986, quando retornaram em definitivo para Sergipe. No decorrer dessas idas e vindas, a versatilidade falou mais alto e ajudou a geminiana a começar de novo, sempre que tudo em volta mudava radicalmente.

Seu primeiro contato com o ensino formal se deu em Lagarto. Foi alfabetizada na Escola Nossa Senhora de Lourdes, mais conhecida como a “Escola de Zezita”, em referência à diretora da instituição, a professora Josefa Rocha Santos, a Zezita, uma das melhores educadoras da cidade. Com a transferência da família para Salvador, Fátima cursou o ensino fundamental – à época, primário e ginásio – nos colégios Santa Ângela da Soledade e Santa Eulália. Ainda na capital baiana, concluiu o ensino médio, antigo segundo grau, no Colégio Estadual Carneiro Ribeiro Filho, no bairro da Soledade. Quando a família retornou em definitivo para Lagarto, ela fez o curso de magistério na Escola Estadual Nossa Senhora da Piedade. Em seguida, graduou-se em Letras com Inglês/Português na Universidade Federal de Sergipe (UFS), turma de 2001.

O primeiro emprego foi como professora primária na extinta Escola Santa Terezinha, na Estrada da Rainha, bairro de Baixa de Quintas, em Salvador. Tinha 18 anos. Trabalhou em outras instituições de ensino particular, tanto na capital baiana como em Lagarto.

Aprovada em concursos públicos, atuou como professora nas redes de ensino municipal (Lagarto) e estadual (Sergipe), lecionou no Colégio Municipal Frei Cristóvão de Santo Hilário e no Colégio Estadual Professor Abelardo Romero Dantas (Polivalente), ambos em Lagarto-SE. Aposentou-se em 2016.

Militante, era uma socialista convicta, uma incansável lutadora em favor das causas da Educação, como atesta o emocionado depoimento do deputado Iran Barbosa (PT): “Fátima vive nas nossas práticas pedagógicas, nas nossas lutas e compromissos em defesa de uma escola pública de qualidade social. Deixa um legado como professora, socialista e comprometida com o bem comum”.

Para ilustrar a dedicação de Fátima à causa da Educação, o parlamentar lembra que no início da década de 1990, aos sábados, ela ministrava aulas, com alguns colegas, para os estudantes do 3º ano do ensino médio. Nessa época, em Lagarto, não havia cursinhos de pré-vestibular nem aulas aos sábados. O objetivo era preparar os alunos da escola pública para o vestibular. “Era com orgulho que ela anunciava a aprovação dos estudantes do Colégio Polivalente”, conta Barbosa. “E a alegria era ainda maior quando algum estudante tinha êxito em medicina ou odontologia, áreas mais concorridas para admissão na UFS.”

Outro depoimento que confirma a verve militante de Fátima vem da professora de Geografia da UFS Josefa Lisboa: “Desde a fundação do PT, ali na segunda metade dos anos 1980, ela foi parceira fundamental na nossa formação como grupo político, companheira na práxis revolucionária, acompanhando-nos no sonho socialista do grupo. Permaneceu íntegra por toda a vida e lutou por todos nós, indignada como toda grande combatente”.

Ainda como militante, Fátima foi fundadora do primeiro sindicato de professores da rede municipal de Lagarto, o Sipla, que viria a se transformar em subsede do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica da Rede Oficial do Estado de Sergipe (Sintese).

“Uma mulher gigante.”

E como será que amigos e familiares se lembrarão de Fátima daqui por diante? A resposta é quase unânime: como uma pessoa que irradiava bondade por onde passava. “Alguém que sabia contemporizar e sempre buscava evidenciar as qualidades positivas do ser humano”, diz a prima Iracema Santos, advogada. “Um ser humano que pensava no próximo. Não julgava as pessoas pelo status social. Colocava todos num mesmo patamar”, atesta outra prima, Regina Célia Souza, pedagoga aposentada. “Uma referência na luta pelos direitos dos professores”, emenda a também prima Isa Cristina da Costa Santos Oliveira, professora. “Uma mulher gigante, amável, que jamais perdeu a ternura, sempre constante no seu sorriso doce e acolhedor”, sintetiza a professora Josefa Lisboa, amiga e companheira de lutas.

Maria nasceu em Salvador (BA) e faleceu em Lagarto (SE), aos 57 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela prima de Maria, Regina Célia da Costa Santos Souza. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Jaciara Maria Santos Aguiar da Silva, revisado por Gabriela Carneiro e moderado por Rayane Urani em 13 de agosto de 2020.