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Maria de Lourdes de Moura Ferreira

1949 - 2020

Era muita mãe só para quatro filhos; então, Dona Lou era mãe de todo mundo que conhecia!

"Dona Lou é minha mãe e de outros três. Mas era muita mãe só para quatro filhos. Então, acabava sendo a mãe de todo mundo que ela conhecia. Mas não como uma dessas mães caretas. No meio de todos os seus enredamentos, sempre buscava receber tudo de mente aberta." Assim o filho Camillo define a mãe.

"Mulher alegre, receptiva, carinhosa, caridosa, inocente, cuidadosa, dedicada. É claro que tinha seus defeitos, mas nunca era lembrada por eles", completa.

Aos 70 anos, tinha uma disposição de deixar todos invejosos. Adorava uma festança e foi uma grandíssima anfitriã. Não negava a origem pernambucana, da qual se sentia orgulhosa, apesar de ter vivido mais anos em São Paulo do que na terra natal.

Amou a família com muito vigor e "se entristecia profundamente quando algo nos atingia ou nos separava. O amor dela não via distância e podia ser sentido seja lá onde se estivesse. Até o amor pelo Seu Sã, meu pai, que nos deixou há tantos anos, nunca morreu ou diminuiu. Foi fiel de uma forma poética até o fim", conta o filho.

"Cabia muita coisa boa dentro dessa baixinha arretada. Ela podia ser pequenina, mas estar perto dela era como ser um planeta rodeando uma estrela de humildade e carisma. É incrível e desesperador pensar que ela não tenha passado ilesa por essa pandemia, mesmo sendo tão cuidadosa e atenta."

De forma carinhosa, Camillo diz como se sente sem a mãe: "Ela nos deixou de forma abrupta e melancólica, mas eu sinto como se ela ainda estivesse aqui. Afinal, uma estrela não desaparece simplesmente sem deixar rastro".

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Esta homenagem foi escrita pela filha de Maria de Lourdes, Liliana:

Por conta dos seus 1,45m de altura, eram muitos os apelidos carinhosos: Lurdinha, Baixinha, Úde. Uma pequena grande mulher nascida em Pernambuco que foi para São Paulo após o casamento em 1972. Se dizia mais paulista do que pernambucana, mas sim, ainda tinha um sotaque delicioso! E guardou os bons costumes nordestinos: os pratos típicos nunca faltavam, a música em todos os momentos e alegria, muita alegria e gratidão pela vida!

Criou quatro filhos sem nenhuma instrução ou apoio de alguém, o que para ela foi motivo de orgulho. Sonhava em trabalhar e dirigir, mas sonhava mais do que realizava.

Adorava reuniões em família e não abria mão de um boa cerveja gelada. Sua praia preferida em São Paulo era Mongaguá. Ela abria mão de qualquer outro paraíso para estar na cidade litorânea que sonhava morar um dia.

Era um ser caridoso e se convalescia com as provações das pessoas, sempre oferecendo uma palavra ou seu ombro amigo. Sua casa estava sempre à disposição para quem quisesse visitá-la. Acolheu e ofereceu abrigo ao seu irmão mais novo, José Edson, que faleceu dois dias depois dela. Ele estava com 60 anos. Muitos da família dizem que meu tio não suportou a separação, pois ela era mais que uma irmã, era uma mãe pra ele.

Um mês antes de partir, perdeu seu outro irmão Laercio Antonio, também vítima da Covid-19. Desenvolveu diabetes emocional após o falecimento do meu pai Samuel Vicente em 2002, mas cuidava muito da saúde, não deixava de tomar os remédios e vibrava quando seus exames davam resultados positivos.

Acolhia à todos com muito amor, sobretudo seus três netos: Beatriz, Helena e Vinícius. Cada um deles puderam desfrutar da companhia de uma vó maravilhosa. Sempre prestativa, adorava festanças! Tanto participar quanto organizar. E nunca faltava aquele bolo de aniversário feito com muito amor e doçura, que sempre saía de suas mãos!

Em meio a tanto amor, despertou a paixão pelo bordado, plantas e espiritismo. Estudou cinco anos a doutrina, praticamente uma faculdade e entendia muito mesmo do assunto.

Minha mãe era luz e irradiava alegria por onde passava. Sua luz se apagou e precisamos ser fortes, pois nossa dor se transforma em dor pra ela, assim diz a doutrina que ela tanto estudou e praticou.

Em sua homenagem, umas das músicas que ela mais gostava, "Não aprendi dizer adeus" de Leandro e Leonardo:

"Não aprendi dizer adeus
Mas tenho que aceitar
Que amores vem e vão
São aves de verão
Se tens que me deixar
Que seja então feliz"

Maria nasceu em Amaraji (PE) e faleceu em Osasco (SP), aos 70 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelos filhos de Maria, Camillo de Moura Ferreira e Liliana Moura Ferreira Thomazini. Este tributo foi apurado por Viviane França, editado por Marilza Ribeiro, revisado por Paola Mariz e moderado por Rayane Urani em 19 de setembro de 2020.