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Maria de Lourdes Nunes da Silva

1940 - 2020

Iluminou a vida de meninos e meninas por meio da educação, vencendo o preconceito com garra e doçura.

Esta é uma carta aberta de José para a sua mãe, Maria:

Demorei muito para me sentar ao teclado onde estou agora e escrever essa homenagem, o que sabia que um dia teria que fazer.

Foi em um domingo meio chuvoso, liguei para ti, como costumava fazer sempre, e algo estava estranho no ar. Tu me contaste que estavas febril e com a garganta irritada, mas com fé, abafamos o medo. Na madrugada, houve uma piora e teu filho mais novo, Vitor, ali ao lado seguiu cuidando de tudo.

Acontece que havia festa marcada nos Céus! Por isso, no dia 9 de junho, na véspera de carimbar "oitentão" nos registros da vida, viraste estrela! Nós ficamos com os corações partidos! Eu, Genival, Francisco, Leandro, João, Vitor, Clara, Maria e tantas outras pessoas da família e amigos, sentimos e estamos sentindo muito! Mas temos a certeza de que estás bem!

Sabemos disso por tua história de vida linda! Uma menina nascida em 1940, pras bandas de Rio dos Índios e Palmeiras, em Ceará-Mirim; cresceste ao lado da família, Mãe Cimina, Papai Mido, meus bisavós, Vó Maria e sua única irmã, Tia Coca, que há tempos mora em São Paulo.

Chegaste a Massaranduba no início de 1970, carregando na bagagem o lindo dom de ensinar. Tudo começou no Grupo Escolar, ao lado da casa de Seu Jurandir. Dali, fizeste uma carreira, por meio da qual educaste várias gerações.

Eu fui um desses meninos que passou pelas salas em que ensinavas com amor. Vivia indo contigo para as reuniões de capacitação, já com 8, 9 anos, pois não tinhas com quem me deixar e lá, tuas amigas já diziam: "Esse vai ser professor, começou tão cedo!" E deu certo.

Dividiste esse fazer com muitas outras educadoras brilhantes: Conceição Vitorino, Bernadete Barbosa, Lourdes Varela, Eniete Maia, Zelda Rocha e muitas outras. Das gerações mais antigas às mais novas!

Em Massaranduba também conheceste Genival ─ lembras que, em 2019, comemoramos 50 anos dessa união? ─, com quem casaste e tiveste sete filhos, duas meninas e cinco meninos? Nos céus já te esperam Ceição, Sidney e Ceiçãozinha, que partiu ainda anjinha. Aqui ficamos nós: José, Francisco, Leandro e João, além de Vitor, o primeiro neto, que também tornou-se filho. Ele, como nós, segue te amando e assim será para sempre, é de se admirar a troca de afeto profundo que sempre aconteceu entre ele e ti.

Foste sempre uma mulher forte, uma matriarca. Nada nessa família era decidido sem tua opinião! Mesmo quando muitos achavam que não tinhas nada a ver com o assunto, tu eras consultada. Foste uma mulher de muita fé! Mesmo tendo experimentado múltiplas vivências religiosas institucionalizadas, me disseste no dia que te comuniquei que estava no Candomblé: "Deus é um só, não importa o caminho!"

Foste uma mulher de extremo cuidado com a família e com todos que precisassem de ti. Enfrentaste preconceitos, enfrentaste o alcoolismo na família, e venceste!

Mesmo sendo uma família pequena, quatro irmãos apenas, não temos muito o hábito de reuniões familiares com todos presentes. No entanto, minha mãe, tu insistias e era capaz de nos reunir. Uma lembrança boa que tenho, graças ao teu esforço de mãe para nos ver todos juntos, foi uma viagem que fizemos no período natalino de 2019.

No dia 25 de dezembro daquele ano, mais especificamente, decidimos ir à praia, eu, meus três irmãos (Francisco, Leandro e João), suas famílias e, lógico, tu - Dona Lourdes -, mais Seu Genival. Escolhemos a Praia de Muriú, no Rio Grande do Norte. Praia que tu gostavas desde tua juventude, vivida nos arredores, nas comunidades de Rio dos Índios e Palmeiras.

Como itinerário, escolhemos a Rota dos Engenhos, caminho que leva à praia e é marcado por ricas histórias, sobre o “império” da cana-de-açúcar naquele município. Tu guardavas e contavas cada uma delas. A quem pertencia cada engenho; onde se localizava cada escola rural, muitas delas onde tu trabalharas como professora primária educando muitas gerações.

Seguimos passando em cada comunidade, Aningas, Coqueiros, Rio dos Índios, Palmeiras, cada uma como um retalho da história de tua vida e, consequentemente, nossa. Chegando à praia, apreciamos o mar e comemos uma boa peixada com camarão, um de teus pratos prediletos. Ali, tu olhavas orgulhosa a família reunida e reafirmavas, a partir de tua presença matriarcal altiva, um poder particular sobre nós, que só tu sabias exercer.

Encerrado o dia, voltamos à nossa casa e tu, com um sorriso esperançoso nos lábios, seguiste tecendo encontros e costurando sempre o melhor para nós. Esses momentos sempre foram de muita alegria e nós os guardaremos para sempre na memória!

Hoje, peço conforto para nossos corações, por vezes egoístas! Quero que saibas que estamos cuidando bem de Genival, nosso velho e, também, uns dos outros. Essa foi tua lição e sei que estás vendo tudo de onde estás!

Por um tempo, o dia de cada mês que marca a tua partida será sempre mais nublado, mesmo que o sol brilhe intensamente lá fora; mas o TEMPO, como senhor de tudo, transformará tudo isso que vivemos agora em boas e alegres lembranças, pois tua trajetória nessa Terra foi brilhante!

Segue em conforto e paz! Até um dia!

Maria nasceu em Ceará-Mirim (RN) e faleceu em Ceará-Mirim (RN), aos 79 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo filho de Maria, José Nunes da Silva. Este texto foi apurado e escrito por Ana Macarini, revisado por Ligia Franzin e Ana Macarini e moderado por Phydia de Athayde em 2 de fevereiro de 2021.