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Maria do Carmo de Holanda Gones

1953 - 2020

Dona da feijoada mais gostosa do mundo. Na sua casa, não faltava carinho e uma boa história para compartilhar.

Caú sempre teve certeza do que e de como gostava das coisas, reflexo da pessoa autêntica que foi. Fazia questão que tudo saísse do seu jeito. Em todos os aspectos da vida.

Sorriso largo, em rosto sempre impecavelmente maquiado, Maria do Carmo era uma mulher de personalidade única.

Na família, sempre foi motivo de piada que Caú saia de casa três horas antes do início da jornada. Antecedência para não correr o risco de se atrasar. Para conciliar vaidade e pontualidade, ia para o trabalho em ônibus com ar-condicionado, e sempre em pé, para não amassar a roupa.
Por onde quer que passasse, deixava sua marca. No shopping em que trabalhava, como gerente de uma loja, todo amavam Caú. Do dono da loja aos funcionários da limpeza.

A família suspeita que era porque ela sabia escutar o outro. E sempre que podia, passava horas aconselhando quem precisasse.

Dona Alda é um destes exemplos. Colega de trabalho e irmã que Caú escolheu, as duas eram inseparáveis. Juntas, sempre falavam de viagens, negócios e compartilhavam fotos de seus netinhos.

Aliás, Maria do Carmo era uma avó babona. De tão presente na vida dos familiares, era a pessoa favorita no mundo da neta Marília. É que Caú cuidou de todos desde o dia que nasceram. Na infância, levava Marília para o balé, ginástica, curso de inglês. Enfim. Aonde fosse preciso.

Quando a neta foi fazer faculdade, lá estava Maria do Carmo com a mudança. Quando ela foi para o exterior, a avó apoiou.

Com o neto mais novo então, era um grude só. De início, Caú não queria mais um neto, mas quando nasceu o caçula passou a fazer tudo pelo menino.

Como morava sozinha, ia todo fim de semana para a casa da filha para ficar com os eles. E, religiosamente, ela chegava com presente para o mais novo. Poderia até ser um lápis, mas ela nunca deixava de levar alguma coisa.

Apesar de um doce, era uma mulher muito forte. Criou a filha, Úria Maria, sozinha, e ai de quem mexesse com sua família.

Suas opiniões eram sempre fortes, seja qual fosse o assunto. Nunca hesitava em dizer quando discordava de alguém. Mulher de postura firme, jamais voltou atrás em uma decisão sua. Prova disso é o que aconteceu com um colega de trabalho que a fazia cócegas. Caú não gostava da brincadeira e sempre pedia para ele parar. Um dia, ela sentenciou: se fizesse cócegas mais uma vez, pararia de falar com ele. Até que ele fez novamente. Maria do Carmo nunca mais falou com ele. E os dois ainda trabalharam juntos por mais quatro anos.

Outro exemplo é quando foi reprimida de comer jaca no carro da filha. Durante um tempo, quando Úria trabalha muito, Marília e o irmão iam para o curso de inglês com a vó. Sempre no carro da mãe. Caú, para agradar os netos, comprava uma comida na rua. Geralmente era amendoim, pipoca. Até que um dia ela levou jaca. O carro ficou dias com o cheiro da fruta, deixando Úria muito brava. Ela conversou com a mãe, pedindo para que não repetisse.

No próximo dia de buscar os netos no curso, Caú apareceu novamente com jaca. Marília foi logo comendo. Porém, o irmão reprimiu: “Vó, você não lembra do que minha mãe falou?” Maria do Carmo abriu o vidro, arrancou o pote da mão de Marília e jogou na rua. De início, eles ficaram chocados com a atitude. Depois de um tempo, o episódio virou motivo de riso na família.

Maria do Carmo também sempre teve um quê de empreendedora. Quando pequena, a família de Caú comprou um freezer, movido a diesel. À época, era a novidade. Aproveitando a oportunidade, ela passou a fazer picolés para vender para irmãos e vizinhos. Certo dia, descobriu que um dos irmãos estava roubando os picolés. Ela o chamou até o freezer, abriu um por um, lambeu e guardou.

Mas também aprontava as suas. Durante um tempo, Caú e as irmãs estudaram em internato. Havia uma professora que consideravam “chata” e resolveram fazer uma festa surpresa para ela. Quando a docente entrou na sala e viu bolo e salgados, fez um escândalo e perguntou “que palhaçada” era aquela. Maria do Carmo não contou outra e lançou bolo pelo ar, dando início a uma guerra de comida.

Metódica, organizada, dona de uma memória invejável, Maria do Carmo sempre tinha uma história para contar. Sobre seus tempos de menina então, era uma coleção.

Costumava lembrar que, quando criança, havia um criador de pombos na cidade onde moravam. Notando que as aves estavam desaparecendo, ele começou a pagar aos irmãos de Caú para que descobrissem quem era. Acontece que eram eles mesmos que estavam matando os animais para comer. Quando chegavam em casa, diziam que era galinha d’água. Depois de muito tempo pagando os meninos e notando que o sumiço dos pombos não cessava, o senhor percebeu o que estava havendo. Foi até a casa deles tirar satisfação, porém, quando chegou na porteira e disse que sabia, foi recebido com uma chuva de pedras de estilingues dos meninos. O homem saiu correndo e jamais voltou. Os pais de Maria do Carmo só descobriram a história depois que os filhos já estavam crescidos.

Algumas das histórias remetem ao passado escravista do Brasil. Quando nova, Maria do Carmo morou em um engenho onde haviam escravos recém-libertos. Caú e os irmãos gostavam de se reunir com uma senhora para ouvir histórias e comer feijoada. Essa mulher sempre ia à casa da família pedir a água do banho de uma irmã de Maria do Carmo, que tinha a cor da pele muito branca, para beber. Ela acreditava que, desta forma, “ficaria branca” também.

Por falar em feijoada, a de Caú era a mais gostosa do mundo. Na casa dela, nunca faltava uma comida afetiva. Muito menos um local de acolhida e uma boa história para compartilhar.

Maria nasceu em Recife (PE) e faleceu em Maceió (AL), aos 67 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela neta de Maria, Marília Gomes Newton. Este tributo foi apurado por Patrícia Garzella, editado por Larissa Paludo, revisado por Gabriela Carneiro e moderado por Rayane Urani em 14 de novembro de 2020.