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Maria dos Santos Cardoso

1946 - 2020

Entre um pedaço e outro de seus bolos, servia sem modéstia porções inesquecíveis de paz e afeto.

Renan de Souza Rodrigues redigiu esta carta-poema para homenagear sua avó, Maria:

Maria dos Santos Cardoso foi a mais forte das lutadoras. Desde pequena, em sua terra natal, desafiou a penúria e o medo, e do solo seco que sua mão semeou fez brotar uma família digna, que lhe foi o maior dos tesouros até o fim.

Como mãe, cuidou dos filhos com seus braços, que eram em mesma medida incansáveis e ternos, com força capaz de vencer o destino, e carinhos vários para aplacar todas as dores em meigos abraços.

Por eles, fez com que desfrutassem de um mundo mais colorido, diferente daquele que enfrentou sem jamais desistir.

Como vó, fazia o café nas manhãs e tardes, que de tamanha doçura, fruto de um carinho infindo, adoçava almas, desavenças, e, entre um pedaço e outro de seus bolos, servia sem modéstia porções inesquecíveis de paz e afeto.

Amou muito, e por todos foi amada. Tamanho amor, neste mundo, só se compara às saudades que deixou.

O vazio nos corações dos que ficam por nada se alivia, além das lembranças dos risos gentis, dos conselhos suaves, da brandura que, no espaço da memória, ainda se faz ver e ouvir. Vive.

Soberana de força, venceu a vida, rainha do amor, que ainda e eternamente vibra, supera até mesmo o fim.

Maria nasceu em Barra Bonita (SP) e faleceu em Barra Bonita (SP), aos 74 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo neto de Maria, Renan de Souza Rodrigues. Este tributo foi apurado por Lígia Franzin, editado por Mariana Quartucci, revisado por Otacílio Nunes e moderado por Phydia de Athayde em 28 de julho de 2020.