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Maria Ilná de Souza

1949 - 2020

Um pilar que sustentou com sua firmeza uma família inteira.

Dona Maria Ilná ou Dá, como era chamada pelos irmãos e os pais, tinha o sonho de ser professora. Casada com seu Francisco, um carpinteiro de mão-cheia, começou a realizar esse sonho junto com o marido, alfabetizando as crianças da rua, que sentavam em mesas e cadeiras feitas pelo seu marido.

Após o terceiro filho, infelizmente, teve que interromper o seu sonho, pois seu Francisco passou a perder a luta contra o alcoolismo, o que acabou por mudar os rumos da vida de Dá, que, para sustentar a família, passou a trabalhar como lavadeira. E foi assim que criou os três filhos que já haviam nascido e os três que ainda vieram. Cuidou do marido até a morte dele, aguentando tudo firme, como um pilar, que, na verdade era. Desistir de um sonho pela família é uma prova inquestionável de sua obstinação e amor.

Obstinação, aliás, que já se havia provado antes deste episódio, quando ela recebeu um terreno de presente de seu Francisco e lá construíram a casa onde eles viveram até a partida. E, quando falo, construíram, não é figura de linguagem. Construíram com as próprias mãos, tijolo por tijolo.

Dona Dá, com sua fala mansa, respeitosa com todos – tinha horror a ser causa de mágoa a quem quer que fosse – adorava aquela casa. Tirá-la do seu quarto, o seu canto preferido no mundo, mesmo para levá-la nas festas no pátio, era um exercício de argumentação para netos e filhos. Netos estes que, vez por outra, às escondidas, presenteavam-na com quitutes que a dieta a proibia de comer por conta do diabetes; sofria pela obesidade e hipertensão. Mas, atire a primeira pedra quem não cometeu lá seus pecadilhos por amor...

Dona Dá escondeu os sintomas da Covid-19 por um bom tempo e uma das razões era ter verdadeiro pavor de hospital. Quando foi à UPA pediu para dali voltar pra casa, para o seu canto, nada de hospitais. Mas não adiantou. Partiu e foi morar em um novo lugar, junto das estrelas.

Maria nasceu em Cedro (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 71 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela neta de Maria, Ana Raquel. Este texto foi apurado e escrito por Fabio Victoria, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 25 de setembro de 2020.