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Maria José de Lima

1971 - 2021

Com suas paródias apimentadas, Tia Nil ensinou aos sobrinhos os conteúdos escolares e o que está além dos livros.

O ato de lecionar foi uma das marcas de Maria José. Com seu jeito exigente e divertido, conquistou - através dos ensinamentos - a admiração, o carinho e o respeito dos irmãos e dos sobrinhos.

Maria não teve filhos, mas as crianças da família - que conviveram intensamente com ela - foram adotadas como tal. Uma de suas paixões era dar aulas particulares de reforço para a garotada, que, carinhosamente, passou a chamá-la de “Tia Nil”. Juntos, faziam como classe a casa de Seu Anacleto, o pai dela.
Formada em Biologia, Tia Nil também tinha ótimos conhecimentos na área de Matemática, Química, Física e Ciências. Muito estudiosa, buscava nos livros a compreensão dos conteúdos escolares, para que assim pudesse responder às dúvidas dos pequenos.

A "sobrinha-aluna" Flávia conta que com ela havia duas alternativas: “aprendia ou aprendia”. De jeitinho único, exigia o envolvimento da meninada, quem não seguisse a cartilha ou, chegasse para a aula e não soubesse dizer o que estava estudando na escola, ganhava "pitos"; além do mais, tudo era comunicado aos pais, que muitas vezes, bem como, davam seus castigos aos desviantes. Cobrava também letra legível e acompanhava os boletins para saber se as notas estavam boas. Já para ajudar na memorização das matérias, uma das estratégias era a composição de paródias com letras bem apimentadas. Seu Anacleto ficava muito zangado quando presenciava os netos cantando tais coisas, mas apesar disso, Maria persistia com a prática pois via os resultados no aprendizado dos sobrinhos. "As letras eram bem inapropriadas. Na intimidade, Tia Nil era espontânea até demais!”, Flávia relembra, sorrindo.

Durante as aulas e no cotidiano, não perdia a oportunidade de ensinar grandes valores. Deixou ensinamentos que nenhum livro é capaz de repassar, mesmo aplicado pelo melhor professor; o respeito a si mesmo e aos outros, em qualquer situação, foi um deles; e também, que tudo deve ser feito com um bom propósito. Um dos ditados populares que repetia era: “A vida não é feita de açúcar e sal!”, ressaltando que, nos desafios, é fundamental ter fé em Deus.

Na casa de seu pai - que passou a ser chamada de “Escolinha do Vovô Necrel” -, também havia espaço e tempo para momentos de lazer e brincadeira com a alegre Tia Nil: foram muitos banhos de tina e mangueira no quintal. Nas celebrações familiares e nos cafés da tarde, marcava presença com seus dotes culinários: fazia sequilhos, torta de coco queimado e abacaxi, como ninguém; além da tapioca que era deliciosa! Nos natais e aniversários, dava sempre o presente que a pessoa sonhava em ganhar, o que se tornava um momento mágico e cheio de alegria para todos. As muitas brincadeiras e risadas, provocadas por ela, são inesquecíveis; sem contar as fotos tiradas com os sobrinhos que acabavam indo para as redes sociais; a tia sempre passava para fazer um comentário.

Foi no ambiente familiar que desenvolveu as formas de amar e estar sempre presente. Muito participativa, gostava de ouvir música e sentar-se numa roda para jogar conversa fora e rir junto. Como filha, buscou ser independente, mas com seu gênio forte, de vez em quando, ficava muito brava com algumas situações e não deixava de expressar suas opiniões. Já com aqueles com quem não tinha muita intimidade, adotava a discrição e era uma mulher de poucas palavras.

Uma das maiores alegrias de Maria José foi o dia em que comprou sua motocicleta. Junto com os pais, ela foi até a concessionária buscar a motoneta de 100 cilindradas. A data marcou a realização de um grande desejo dela, que, desde então, vez ou outra, saia para resolver alguma questão pessoal ou simplesmente para dar uma volta em seu veículo de duas rodas.

Apesar de ser considerada como uma pessoa caseira, nos momentos de lazer, gostava também de visitar a casa dos familiares, principalmente das irmãs “Preta e Teté”. Um carinho especial também era dedicado à irmã Neide, com quem morou durante parte da vida. As quatro cultivaram uma bela amizade e dividiam os momentos da vida.
Outro local que sentia prazer em estar era na barragem existente, em Limoeiro do Norte (CE). Quando algum familiar, que morava em outra cidade, vinha fazer uma visita, todos iam passar o dia no balneário e na área de lazer - que ficam às margens da barragem construída para garantir o abastecimento de água da cidade. Nos finais de tarde e início de noite, também apreciava sair para tomar sorvete ou comer pizza.

Tia Nil, segue viva nos saberes que repassou aos sobrinhos, e na memória dos sabores de suas sobremesas tão inesquecíveis aos que tiveram a alegria de se deliciar.

Maria nasceu em Limoeiro do Norte (CE) e faleceu em Quixadá (CE), aos 50 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela sobrinha de Maria, Flávia Karinghe de Lima Bandeira. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Ernesto Marques, revisado por Luana da Silva e moderado por Rayane Urani em 16 de outubro de 2021.