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Maria José de Lima

1945 - 2020

Quando irritada, andava pela casa arrastando os pés e cantando até reencontrar a calma e aquilo que queria dizer.

A fé e a caridade são marcas da vida de Dona Maria José. Uma mulher que, na simplicidade da vida, transformava o ato de rezar em ações solidárias e de cuidado com pessoas da família, amigos e quem ela nem conhecia. Biér para os de casa, MaZé para vizinhos e amigos da igreja e, carinhosa e simplesmente, Maria para o esposo Messias; nomes repletos de significado, que fazem parte da rede de afetos na qual ela embalou sua vida.

A filha Ana Virlane conta que os familiares somente souberam das ações solidárias da mãe após seu falecimento. É que Mazé sempre fazia tudo com naturalidade e discrição. A solidariedade dela expressou-se no custeio de passagens e cópias de textos para estudo da sobrinha Jaqueline, que também é agradecida pelas panelas que ganhou da tia. Com o irmão Chico, a ajuda ocorreu na compra de créditos para o celular dele. Foram muitos os que receberam cestas básicas, graças à iniciativa de Mazé, juntamente com os vizinhos e amigos da igreja. Outro exemplo, é o que fazia para um carroceiro que de vez em quando passava pela rua: ele tinha na casa de Dona Maria a certeza de um almoço doado de coração.

Biér também fazia questão de acolher os parentes do interior, em sua casa na capital, quando precisavam de um local de pouso em Fortaleza para algum tratamento médico ou para solucionar alguma questão pessoal.

Defensora da harmonia, fazia tudo o que estivesse ao seu alcance para evitar ou intermediar conflitos. Biér não gostava de brigas na família e sempre tinha um conselho para instruir as pessoas a "retomar a calma, a serenidade e o caminho certo”, destaca a filha Márcia.

Nas situações em que ficava irritada com alguma coisa, ela saía pela casa “arrastando os pés e cantando”. Nestes momentos, ela estava se acalmando e pensando no que dizer. E algum tempo depois começava suas falas dizendo: “Gente, por isso é que eu digo...”

Nos momentos de angústia e aflição, ela também se colocava como ponto de apoio. Muitas vezes a pessoa chegava até ela muito aflita. No decorrer da conversa, com sua habitual mansidão no falar, ela ponderava alternativas, aconselhava e a pessoa “saia com o coração leve”.

A devoção fervorosa a Nossa Senhora nasceu em Jaguaruana, sua cidade natal, na Paróquia Senhora Sant'Ana. Mesmo depois da mudança para a capital cearense, todo mês de julho fazia questão de participar da festa da padroeira na pequena cidade interiorana. Entre os preparativos para a viagem estava a escolha de presentes para os parentes de lá.

Em Fortaleza, participava ativamente da Pastoral do Idoso e do Apostolado do Sagrado Coração de Jesus na Paróquia de Mãe Santíssima. Nos meses de maio, participava das novenas em devoção a Nossa Senhora de Fátima. Juntamente com outros fiéis, rezava o terço, cada dia na casa de uma família. A decoração do altar para as coroações de Nossa Senhora era um compromisso anual de Mazé, que ficava orgulhosa admirando o resultado do trabalho.

Da educação dos sete filhos e seis netos fizeram parte as cobranças para que todos frequentassem a igreja. Se percebia que alguém estava um pouco ausente, logo dizia que já era hora de voltar a participar das celebrações da missa.

As músicas preferidas de Dona Maria estão também associadas ao universo religioso. Enquanto fazia as atividades domésticas, gostava muito de ouvir “Regaço Acolhedor” de Irmã Kelly e “Irmão Ausente” de Elizabete Lacerda. Cotidianamente ouvia também as pregações do padre Reginaldo Manzotti e o “Terço da Misericórdia”.

Além dos feriados, outra data que sempre levava Biér até Jaguaruana era o aniversário da mãe, Dona Raimunda. O encontro familiar era uma das grandes alegrias dela. Meses antes, juntamente com as filhas, preparava lembrancinhas para distribuir a todos. Podia ser uma toalhinha, uma caneca, uma almofada, sempre com o nome da Dona Raimunda gravado no presente. Os parentes de lá também preparavam a decoração do local.

Na véspera da festa, juntamente com outras mulheres, preparava o chamado Caldo da Caridade: um cozido a base de farinha de mandioca, ovos, pimenta, cheiro-verde e, quando a situação permitia, carne moída. No dia da festa, que era próxima do Natal, Mazé puxava uma oração.

Na memória dos familiares estão o sabor de muitos outros "cozidos" de Biér. Feijoada, Panelada, buchada de bode. Sempre preparados na véspera para que o sabor ficasse apurado. Quando era feijoada, o feijão era colocado de molho para amaciar. Depois era cozido em panela normal por muito tempo até chegar ao ponto ideal de cozimento. É que ela não gostava de panelas de pressão, pois tinha muito medo de lidar com elas.

Uma menção especial foi feita pelas irmãs Ana Virlane e Márcia a dois netos. O primeiro foi Raylson, que morou com a avó dos 9 anos até o dia do seu casamento. Gabriel, por sua vez, “era a companhia de mãe”, explicam. Morando com a avó desde muito novo, ele acabou optando por seguir a vida ao lado dela em vez de morar com a mãe. Quando todos iam para o trabalho era ele quem ficava em casa ao lado dela. Juntos faziam muitas fotos e vídeos no celular, que eram postados nas redes sociais dos familiares de Jaguaruana. Era comum que, ao terminar um cozido, Biér pedisse a Gabriel para gravar um vídeo e compartilhar com algum familiar.

Mas na rede de afetos de Dona Maria, não se pode deixar de falar da relação dela com o esposo Messias. Os dois se casaram muito jovens em Jaguaruana. Ela foi uma esposa atenta e participativa. Quando via necessidade, não se furtava a alertar Messias sobre aquilo que ela não gostava.

A vida do casal começou em Jaguaruana. Depois, tentaram a vida em Fortaleza, mas Seu Messias não conseguiu emprego e tiveram que retornar ao interior, onde foram acolhidos por Dona Raimunda.

Um acontecimento cheio de beleza marca a vida do casal. Certa vez, em Fortaleza, antes de Messias tornar-se professor, ele fazia “macacos, bicos ou serviços de quebra galho” — expressões utilizadas na região para se referir a trabalhos esporádicos feitos para ganhar o sustento. Trabalhando numa tipografia, Messias levava para casa livros que estavam sendo reformados e o casal passava horas colando capas novas nos livros. E Dona Maria, que pouco sabia ler, contribuía para que muitos exemplares ganhassem ares de novos e pudessem voltar às prateleiras para alcançar outros leitores.

Biér não pôde terminar os estudos e cursou apenas o “primário”, nome dado ao Ensino Fundamental daquela época. Mas o seu apoio e o de sua mãe, Dona Raimunda, foram muito importantes para que Messias pudesse seguir estudando e se formasse em Filosofia e História. Ela se alegrava ao saber que a formação para o trabalho de professor do marido — que contribuiu para a melhoria da qualidade de vida da família — teve sua participação direta nos cuidados com a casa, os filhos e na administração calma dos momentos desafiadores.

Entre os muitos desejos que Dona Maria conseguiu realizar esteve a reforma da casa. Ela vivia dizendo que morreria sem conseguir realizar esse sonho, o que felizmente não aconteceu. Ana Virlane conta, numa mistura de felicidade e saudade, do dia em que ocorreu a primeira chuva depois da reforma. Biér, deitada em sua rede, disse “eu tô aqui na minha casinha e nem vejo que está chovendo”. É que antes da reforma, o telhado tinha algumas goteiras e na hora da chuva era preciso usar vasilhas para aparar as gotas d’água.

Quase todo dia, de tardinha, após tomar seu banho, Dona Maria gostava de se sentar na calçada. Era momento das conversas com a cunhada Lena, que Biér tinha como uma irmã. Dependendo da posição do sol, as duas escolhiam o lugar onde ficavam assentadas. E na porta de suas casas, observando o movimento da rua, falavam da vida — hábito que foi tecendo o afeto entre as duas.

Depois da rede de afetos, esta homenagem não pode terminar sem que se fale das redes. Jaguaruana é conhecida como a Capital Nacional da Rede. Muitos parentes de Dona Maria trabalham nas tecelagens locais. Sempre que necessário, nas idas ao interior, ela comprava uma das muitas redes que ainda hoje estão na casa da Capital. Biér não gostava de dormir em camas e toda noite “armava sua rede para se balançar” e nela descansava durante a noite, como é costume regional. Nas casas dos familiares do interior, moradores e convidados sempre dormem em redes.

Maria, Mazé, Biér, Mãe Mazé — ela segue viva nas novenas e terços; na lembrança emocionada de Ana Virlane da imagem da mãe sentada na porta de casa quando voltava do trabalho, e no balanço das redes da casa.

Maria nasceu em Jaguaruana (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 74 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelas filhas de Maria, Ana Virlane de Lima e Márcia Maria de Lima Gregório. Este texto foi apurado e escrito por jornalista Ernesto Marques, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 2 de outubro de 2021.