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Maria Nilda Pereira da Silva

1974 - 2020

Gostava de azul por ser o tom do céu, que lembra Jesus e Deus, e a cor do mar, que ela tanto quis ver de perto.

Líder da bagunça familiar, era ela quem se encarregava de levar a parentada para as festas. Ganhou o apelido de Dida de um dos irmãos mais novos, que não conseguia falar o nome composto. "Eu sou filho da Dida, nem tanto da Nilda", brinca Ladson, o caçula da maranhense, mãe também de Ludma.

Ladson conta que começou a trabalhar cedo e acabou assumindo a imagem de "homem da casa", pois vivia apenas com a mãe e a irmã. "Mas ela nunca quis que eu me afastasse da minha condição de adolescente. Quando eu estava com mamãe, eu me sentia leve, me sentia acolhido. Ela sempre me tratava como bebê e era assim que ela me chamava. Minha irmã ela chamava de nenê. Ela sempre foi protetora com a gente", ressalta.

Nascida no pequeno munícipio de Porto Franco, às margens do Rio Tocantins, Dida nutria um grande desejo: conhecer o mar. "Minha mãe amava a cor azul."

Católica fervorosa, Dida era presença constante na igreja. Além disso, apreciava assistir aos programas religiosos na TV e não perdia a chance de acompanhar as novelas favoritas. "Ela tinha uma cadeirinha, um local específico dela. Ligava a televisão, assistia aos programas dela. Quando eu chegava, sentava do lado dela, ela me dava um beijo, me dava um abraço, perguntava 'como foi o dia'", relembra Ladson.

Dida casou-se duas vezes, mas criou os dois filhos sozinha, como diarista e cozinheira. "Mãezona e tiazona", Dida atuava como elo agregador da família. Segundo Ladson, a mãe era a segunda matriarca do clã: "Minha avó materna dizia que, em alguns momentos, a filha era mais chefe da casa do que ela própria".

Por ser forte, batalhadora e atenciosa, Maria Nilda tornou-se um exemplo de solidariedade também para a vizinhança. "Dida faz muita falta, ela conversava comigo todos os dias. Houve vezes em que ouvi ela chorando de dor, ao lado, mas, no dia seguinte cedo, ela estava aqui na porta, sorrindo", pontua o vizinho.

Maria Nilda sofria com o lúpus, doença autoimune; entretanto, não esmorecia. Colocava MPB ou "flashbacks" para rolar e se permitia dançar e cantar livremente. "Quando ela dançava, se sentia com vida. Lembrava da juventude dela e também fortalecia seus nervos. Mamãe passou a alegria da dança para minha irmã e para mim também". E para os familiares, foi, sobretudo, referência: "A tia Dida está fazendo isso, então eu faço também".

Empática, Dida fazia a diferença na rua humilde em que morava. "Se acontecia alguma coisa, ela ia lá e apoiava. Uma vez, ela foi ao velório de uma senhora que ela não conhecia. Ela foi, fez café e deu conforto para os familiares durante toda a madrugada. Mamãe era de personalidade amável, uma pessoa com quem valia a pena conviver", pontua Ladson.

Cozinhar era outra forma de Dida doar atenção e generosidade. Tornou-se vegetariana para cuidar da própria saúde, porém sabia fazer de tudo muito bem. "Ela amava cozinhar para muita gente e nos ensinou, a mim e à minha irmã, a preparar refeições. Hummm... o feijão dela era o melhor do mundo!", garante o caçula.

A alma guerreira e amorosa de Dida deixa um vazio imenso. "Ela não tinha restrição para falar o quanto ela amava a gente. Eu sinto muita saudade disso todos os dias. Não tem um momento sequer em que eu entre em casa e não me venha à cabeça a imagem da mamãe".

Maria nasceu em Porto Franco (MA) e faleceu em Imperatriz (MA), aos 46 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo filho de Maria, Ladson Silva Souza (filho) e Ludma Silva Souza (filha). Este tributo foi apurado por Ana Laura Menegat de Azevedo, editado por Luciana Assunção, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Rayane Urani em 13 de outubro de 2021.