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Nadir da Cruz Figueiredo

1955 - 2020

Era impossível conviver com ela e não passar a encarar a vida com mais carinho e generosidade.

Definitivamente uma coisa que não fez parte da existência de Nadir foi se apequenar diante da vida. Cuidar tanto de pessoas como de lares foi a forma que encontrou para prover tanto o seu sustento, como o dos sete irmãos que ela ajudou a criar depois da partida da mãe.

Apesar de não ter tido a oportunidade de estudar, a habilidade que Nadir tinha em criar ferramentas para o bem-estar de quem estava ao seu redor deixava qualquer um impressionado com as engenhosidades dela. O feito mais marcante, e que a cunhada Regina brinca que ela deveria ter patenteado a invenção, foi uma adaptação de costura para que o marido conseguisse usar um garfo para comer.

Aos 23 anos, Araken Figueiredo, primeiro amor e namorado da vida de Nadir, sofreu um acidente que resultou na perda completa de um braço e na metade do outro. A jovem mãe e esposa não permitiu que a adversidade fosse maior que a vontade de encontrar motivos para agradecer à família que estavam construindo; e assim fez durante os quinze anos de união com Araken.

Apesar do curto período que conseguiu desfrutar ao lado de seu grande amor, o casamento deu vida a três filhas e, até a estadia de Nadir nesse mundo, mais quatro netos e uma bisneta que abrilhantaram a passagem da mulher guerreira que ela foi.

Mas fora a família que formou, Nadir tinha uma espécie de imã que agregava gente para sua vida com facilidade. A cunhada Regina, por exemplo, que a considerava como uma irmã, gosta de definir a maior virtude dela da seguinte forma: agregadora.

As crianças que ela cuidou, quando montou uma pequena creche em sua casa, mesmo agora, depois de adultos, mantêm Nadir como um símbolo de amor e cuidado. A atenção exclusiva que dedicava a quem quer que fosse, se manifestou de maneira muito visível em uma situação que aconteceu nessa creche. Ela se incomodava de tal maneira com as calças apertadas, que chegavam a marcar a perninha de uma das crianças, que não perdeu tempo: habilidosa na costura, colocou nesgas nas calças da criança, aumentando-as de tamanho. Ela ria contando histórias como essa, das soluções que encontrava para deixar a vida um tanto mais leve.

Entre suas paixões, as obras de arte que fazia em crochê lhe renderam muitas alegrias. A vizinhança até estranha não ver mais o banquinho que Nadir colocava para sentar na porta de sua casa, junto a uma mesinha, onde expunha suas peças.

A fé que conservou por toda sua trajetória também teve muito valor em sua vida; e a Igreja Cristã Maranata foi o templo onde ela encontrou refúgio para enfrentar os desafios e também o lugar de comunhão entre seus irmãos na fé.

A emoção era sua palavra de ordem — em tudo que tocou, colocou sentimento. Procurou sempre descartar rancores, não alimentar mágoas ou maldizer pessoas. Esse espírito disposto para com a vida a ajudou a enfrentar quatro anos de um tratamento severo contra um câncer de mama junto com a diabetes.

Ainda que sua partida deixe feridas profundas, a memória de quem foi Nadir é capaz de confortar aqueles que ficaram. “Falar de Nadir, pra mim, é muito fácil. Nunca a ouvi dar um grito, nem ficar zangada ou de mal com a vida. Sempre cultivou a prática de unir e cuidar de pessoas. Uma amiga disponível e uma comadre/cunhada imperdível. Uma pessoa linda, amiga, prestativa e no jeitinho dela: feliz!”, expressa Regina.

Nadir nasceu em Macaé (RJ) e faleceu em Macaé (RJ), aos 64 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela cunhada de Nadir, Regina Célia Vieira Figueiredo. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Júllia Cássia, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 17 de outubro de 2020.