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Nestor Pereira Campista

1943 - 2020

Jardineiro e poeta. Plantava flores pelos jardins e semeava outras tantas ao espalhar seus versos por aí.

Nestor merece existir em prosa, sobretudo, porque sua essência era de poeta. Antes mesmo de saber usar lápis e papel, escrevia com a alma, recitando suas poesias a quem cruzasse seu caminho.

Apelidado de Campista, trabalhou boa parte da vida como jardineiro e acabou sendo conhecido como "O Poeta das Flores". O título veio quando Nestor já havia se mudado para Rondônia, mas o sobrinho Saulo conta que a família identifica o poeta assim, pois as primeiras poesias de sua autoria que eles conheceram falavam sobre flores.

Assim, Nestor cultivava flores nos jardins que cuidava e nos corações em que as plantava, com sua bondade e talento. Saulo conta que o tio "sempre criava uma poesia para cada pessoa que conhecia". O sobrinho foi um dos presenteados com uma poesia fantástica que relatava a conquista de grandezas. O texto não pôde ser registrado materialmente, mas existe na memória e no coração de Saulo.

É que Nestor, de origem humilde, só foi aprender a ler e a escrever com ajuda dos próprios filhos. Ele foi pai de sete ― Luzia, Conceição, Luíza, Maria, Josenila, Gilmar e José Luiz ― todos frutos da união com sua amada Jozenir Babilon.

Quando mudou de estado, Nestor Campista já estava com a família quase completa. Foi, porque buscava uma vida melhor para si e para os seus, e conseguiu dar-lhes o mais básico: uma educação bem-estruturada. Os filhos colheram os frutos do empenho do pai e, em troca, permitiram que o pai tivesse o conhecimento necessário para escrever seus poemas e textos.

Uma das criações, envolta em mistério e inspirada pela fé, foi um poema feito para o Papa ― que Nestor sonhava em conhecer ―, e que foi mantido em segredo. A escrita, que ocupava a vida de Campista nas horas vagas, fez com que ele idealizasse a publicação de um livro de poesias. Um sonho que precisou passar de mãos depois que o poeta se foi, ficando a cargo de sua família, que se comprometeu a tornar o livro uma realidade.

E, por falar em família, mesmo tendo se mudado, Campista não esquecia dos parentes que ficaram no Espírito Santo. Sempre que podia, fazia viagens para visitá-los, passando de casa em casa. Saulo conta que, por ser muito querido, a presença do tio "atraía familiares de todos os cantos".

Nestor foi filho, irmão, marido, pai, tio, avô, amigo e poeta. Se, por muito tempo, suas criações não puderam ser registradas na matéria, agora é ele que, mesmo homenageado em prosa escrita e concreta, vive eternamente de forma abstrata. Como disse o sobrinho Saulo, "somente com palavras não é possível definir um homem que, com palavras, nos dava sentido em existir".

Nestor nasceu em Linhares (ES) e faleceu em Cacoal (RO), aos 77 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo sobrinho de Nestor, Saulo Campista Felicidade. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Larissa Reis, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 29 de novembro de 2020.