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Nilza Pereira Pinheiro

1946 - 2020

Vaidosa, adorava batom e esmalte vermelhos. Fazia o melhor pudim do mundo.

Mesa farta, o bolo da dona Mirinha (a boleira predileta dela) a disposição de quem quisesse, Coca-Cola, rabada, bolo de aipim, lanche da tarde... Era assim a cozinha da Nilza. O pudim dela era o melhor que existia.

Tinha mania de colocar talco no pescoço. Vaidosa, gostava de esmalte e batom vermelhos. Gostava de se cuidar e de comprar novos produtos de beleza. Adorava camisetas decoradas. Divertia-se com crochê.

Sempre trabalhou. Era datilógrafa e tinha muito orgulho do emprego. Começou a trabalhar para ajudar em casa, e conseguiu o que queria: ajudou. Era uma mulher de fibra. Religiosa, Nilza pedia a Santo Antônio para que lhe mandasse um anjo de Deus, um bom homem para que pudesse casar.

Conheceu José no Ministério da Saúde. Os dois se aproximaram num curso que foi disponibilizado para os funcionários. O companheiro de uma vida toda lhe mandava cartas antes de casar, e bilhetes de amor depois do matrimônio. Apaixonada, adorava comprar casacos iguais para ela e o esposo.

Teve lá suas graças. Gostava de coisas novas. Quando veio o celular e a modernização, Nilza topou o desafio. Mas ela ligava para os outros de madrugada e nem sabia! Encaminhava foto e nem via! Em uma ceia de Natal, enquanto José fazia a oração, ela pediu para encerrar porque estava com fome.

Sonhava em ver o filho construir uma família e que a filha lhe desse um neto. Conseguiu se realizar. Era o tipo de avó que dava tudo aos netos. Levava na papelaria, agradava, levava para lanchar, para passear...

Os lanches da tarde não têm mais tanta graça. O batom vermelho ficou um pouco menos bonito com a partida da Nilza. A saudade tem gosto de pudim. Nunca vai haver outro como o dela. Quanto aos casacos iguais, esses ficaram guardados sempre juntos. Assim como seus donos. Sempre juntos.

Nilza Pereira Pinheiro foi casada com José Thelles Pinheiro por quarenta e cinco. Ela partiu dezesseis dias antes dele. Se você quer conhecer essa história, procure por José Thelles Pinheiro aqui neste memorial.

Nilza nasceu no Rio de Janeiro (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 74 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela neta de Nilza, Thalita Solis Pinheiro. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Bárbara Aparecida Alves Queiroz, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 31 de agosto de 2020.