Sobre o Inumeráveis

Olavo Fonseca

1933 - 2020

Conversou com o Boto numa noite escura; e esta era só uma das inumeráveis histórias que contava diante de olhos encantados.

Olavo Arapaço era um dos moradores mais antigo do Povoado Santa Inês, em Santa Isabel do Rio Negro, distante 683 km de Manaus. Muito trabalhador, chegou a ser funcionário público da prefeitura da cidade, mas toda sua vida foi dedicada à pesca e ao roçado, onde juntamente com a esposa Mercedes não fugia da lida e onde também trabalhou ativamente desde a mobilização até a finalização da construção da casa de farinha da localidade. Ele era um homem ativo, mais que isso: Olavo era proativo. Nas horas vagas sempre arranjava um trabalho para fazer em casa ou no sítio.

Torcedor do time regional "Grêmio do Santa Inês", era também aficionado pelo "Verde" ─ nos jogos locais, que acontecem no mês de setembro na cidade, são formados dois times: o Verde e o Amarelo ─, e ele estava sempre lá na torcida. Também gostava de acompanhar os esportes pela TV.

Ao todo teve 12 filhos, 23 netos e 16 bisnetos; e todos eles receberam os benzimentos fortes de seu Olavo. As benzeduras eram costumeiras, mas tornavam-se bem pontuais em alguns momentos especiais na vida da família: aconteciam a cada gravidez; na primeira alimentação e na primeira ida à roça após o parto; benzia as crianças e fazia o fechamento do corpo quando da passagem das filhas de meninas para moças.

Era dado ao diálogo. Não apenas se limitava a cumprimentar, ele precisava conversar com quem quer que aparecesse na sua frente.

"Ele nos incentivou a trabalhar, a estudar e a não desistir nunca", conta a filha Virginia. A filha relembra ainda que ele amava contar histórias dos livros que lia e de seus ancestrais. "Ele também gostava de escrever e sempre anotava em seu papel gráfico todas as suas viagens de barco a Manaus ou a São Gabriel. Registrava a data, a hora e o nome de cada comunidade pela qual ia passando."

Como todo pescador, seu Olavo era também um grande contador de causos e histórias. Uma delas - e talvez a mais conhecida e rememorada por todos -, é a de quando ele conversou com o Boto na escuridão da noite em pleno Rio Negro. Ele ouviu uma voz: "Ei, Semu (termo usado para primo ou amigo), pegou muito peixe?". "Sim, peguei alguns", respondeu Olavo. Então ouviu mais uma vez a voz que dizia: "Pode me dar um pouco? Não peguei nenhum ainda". Seu Olavo contava que ao ouvir o pedido não hesitou e, ligeiro, colocou um dos peixes na pá do remo e o esticou na escuridão do rio. Na mesma hora escutou um barulho na água e em seguida sentiu um banzeiro na canoa. Até tentou, mas mesmo com a luz de sua lanterna não enxergou nada, nada mesmo... Mas acredite, a voz era do Boto!

Na rua onde morava, as crianças se apinhavam na frente de sua casa e ficavam sentadas e atentas para não perderem nenhum detalhe das histórias de seu Olavo. Além da história do Boto, tinha a da cobra Honorato (a Cobra Grande), dos Encantados... Eram muitas histórias que fizeram e ainda fazem parte do imaginário e do coração de quem teve a prazerosa sensação de ouvi-las, contadas pelo próprio homem que conhecia e carregava cada um deles como seres viventes, reais e não apenas mitos e lendas.

Seu Olavo convidava todos que ouviam suas histórias a navegarem em seus rios, a se encantarem e a entrarem nos devaneios que se espraiam nos grandes mistérios que cercam a vida ribeirinha. Suas leituras e suas experiências de vida eram como um grande rio que reúne um universo enorme de significados e lendas, de crenças e de seres sobrenaturais. Ele se alimentava do rio e da floresta, ouvia o vento balançar as árvores refletidas no espelho das águas e conhecia cada segredo contido nesse mundo mágico onde os seres encantados habitam.

Que a tradição oral de seu Olavo não se perca, pois esse é o maior legado que ele poderia deixar para sua família e para o seu povo.



Sobre o povo Arapaço:

Também conhecidos como Arapaso, os Arapaço são um grupo indígena que habita o Noroeste do estado brasileiro do Amazonas, mais precisamente nas áreas indígenas do Rio Negro. Identificou-se, em 2001, cerca de 328 integrantes dessa etnia do grupo dos tukano oriental que atualmente fala apenas a língua tukano. Vivem no Médio Uaupés, abaixo de Iauareté, em povoados como Loiro, Paraná Jucá e São Francisco. Várias famílias também moram à beira do Rio Negro.

Olavo nasceu em Santa Isabel do Rio Negro (AM) e faleceu em Santa Isabel do Rio Negro (AM), aos 87 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela filha de Olavo, do povo Arapaço, Virginia Braga Fonseca. Este texto foi apurado e escrito por Lígia Franzin, revisado por Ana Macarini e moderado por Ana Macarini em 3 de janeiro de 2022.