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Paulo Afonso Chamma

1953 - 2020

Se gabava do chope preto bem gelado, tirado na sua chopeira e na caneca zero grau.

Esta é uma carta aberta de Renata para o seu pai, Paulo:

"Escrever esse texto talvez seja a tarefa mais difícil da minha vida, porque eu estou falando do meu grande herói, meu Pai.

Dr. Paulo ou apenas Paulinho, como muitos o conheciam, sempre foi um pai presente, e um médico apaixonado pela profissão. Nada o tirava de uma sala de cirurgia se o dever de ofício o chamasse, nem mesmo batizados de seus afilhados. O celular tocava, e lá estava a minha mãe sozinha, batizando mais um afilhado(a). E, foi assim, que ele acabou contraindo o vírus.

Ele, mesmo sendo do grupo de risco, não abandonou seu posto no Hospital Federal Cardoso Fontes, lugar que ele dizia que os pacientes com câncer mereciam cuidado e respeito.

Pai, você faleceu no dia de São Jorge, que dia lindo, diga-se de passagem. Foi um dia de muito sol, luz e paz. O seu enterro, apesar de fechado pelas circunstâncias, foi às 18h, em plena Ave Maria, num dos fins de tarde mais bonitos que eu já vi na vida.

Ah, meu pai, que saudade de você. Eu sempre disse que você era a grande paixão da minha vida, minha inquietude, minha alma, o meu verdadeiro suporte. Nós discutíamos, brigávamos, mas nada separava a gente. Você só nos deu alegria.

Hoje, me olhar no espelho machuca tanto, mas tanto, que a dor física corrói. Eu sou igual a você, fisicamente e em muitos aspectos. Somos responsáveis, honestos, preocupados com as pessoas ao nosso redor, com medo do futuro, medo esse, inclusive, que não deixou você viver intensamente como merecia.

Apesar de caseiro, sempre gostava da casa cheia de gente, porque a sua varanda, um verdadeiro botequim dos anos 40, 50, fazia você sorrir, você vibrar. As canecas zero grau e o chope preto eram a referência da casa. E, quando não era possível comprar o barril de chope preto, uma black princess bem gelada resolvia.

E o fluminense? "Tá lá", você gritava a cada gol. Os vizinhos já até sabiam quando o fluminense jogava, porque, entre uma crítica e outra aos técnicos, vinha mais um grito "dá-lhe, flusão".

Extremamente organizado e detalhista, a tudo ele dava vida. Por isso que eu costumava dizer que, apesar de um excelente médico, ele era um arquiteto frustrado.

Minhas melhores lembranças foram da minha infância ao seu lado. Lembro de absolutamente tudo, desde os carnavais de rua, até o cachorro-quente "genial" no Maracanã.

Lembro, ainda, de uma das conversas mais bonitas que tivemos, quando você sentou ao lado da minha cama e pediu desculpas por ter falado algumas besteiras. Quem nunca!? Mas aquele gesto me marcou, porque você disse que eu, por ser igual a você, precisava ajudar a cuidar da minha mãe e irmão. Quanta responsabilidade. Talvez você soubesse que eu daria conta do recado, mesmo que eu tenha dificuldade, hoje, de acreditar nisso (perdi as forças). Afinal de contas, não consegui te trazer de volta para casa.

Você viveu para nós e por nós, pai.

Com você eu aprendi basicamente tudo que sei sobre a vida. Sobre vitórias, derrotas, medo, anseios e, principalmente, sobre humanidade. Após o seu falecimento, não foi uma, nem mesmo algumas mensagens, homenagens ou ligações que recebemos, foram centenas, milhares, pessoas que moram em outros estados e países, todos tristes com a sua partida repentina e cruel. Sim, cruel e devastadora. Até seus pacientes do hospital de Curicica, que fechou, ligaram.

Saiba que não existem palavras suficientes para que eu descreva o amor e orgulho que sinto de você. Saiba também que esse buraco que você deixou no meu peito é profundo e gigante.

Por favor, não esqueça de nós. Não me abandone nessa caminhada. Olhe por nós e nos proteja. Seja meu guia celestial a partir de agora, dando forças e sabedoria para que eu consiga manter o seu legado vivo, que eu consiga ajudar e proteger a minha mãe e irmão, como você me pediu.

Eu te prometo, com todo meu amor, que farei tudo que estiver ao meu alcance.

Ajude Papai do Céu nessa sua nova missão. Cuide daqueles enfermos que perderam a vida pelo vírus e que não estavam ainda preparados para tanto. Eu sei que você vai brilhar ainda mais no Céu, porque você é aquela estrela que tem brilhado quase toda noite em frente a minha janela.

Seja, mais uma vez, o anjo na vida de muitas outras pessoas.

Fica com Deus, meu pai. Meu amor por você será eterno.

De sua filha, Renata."

Paulo nasceu no Rio de Janeiro e faleceu no Rio de Janeiro, aos 67 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Rayane Urani, a partir do testemunho enviado por filha Renata, em 3 de maio de 2020.