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Paulo Henrique Primo de Araújo

1976 - 2021

Cheio de talentos, conseguia consertar qualquer coisa orientando-se por vídeos que pesquisava na internet.

Paulinho vivia com um sorriso no rosto, sempre disposto a ajudar. Ele não gostava de injustiças. Era muito responsável, correto e prestativo. Também não apreciava brincadeiras de mau gosto; caso presenciasse uma "vergonha alheia", achava até engraçado, mas jamais caçoaria da pessoa por causa disso.

Possuía um senso de honestidade e respeito muito desenvolvido. Certa vez irritou-se e brigou com um colega porque ele havia feito um comentário indevido a uma moça que passava na rua. Paulinho o interpelou, questionando-o como ele reagiria se algo parecido acontecesse com uma filha, esposa, irmã ou até com sua própria mãe.

Homem de palavra e responsabilidade, valorizava a verdade, acima de tudo. Sua esposa, Reijane, relata uma passagem que demonstra bem estas suas qualidades: certa vez, ele, muito empolgado, havia feito o pagamento da inscrição dela em um concurso. No dia da prova, preparou o almoço para ela e comprou tudo o que era preciso para levar para o local de prova. Ela, no entanto, não havia estudado e nem sequer lido o edital. Eis que, quando Reijane ingressa na sala e senta no seu lugar, descobre que a prova era composta de duas etapas e que ela havia perdido a parte realizada no período da manhã. Ela conta que saiu da sala depois de uma hora e foi embora pensando em ocultar a verdade do marido, mas não conseguiu e ligou para ele contando o que havia ocorrido. Paulinho ficou muito chateado e, quando ela chegou em casa, não quis nem falar com ela. Depois de algumas horas, entretanto, procurou-a para conversar e disse-lhe que, apesar de ter ficado muito decepcionado com o ocorrido, sua atitude de lhe dizer a verdade o havia feito “amolecer” e valorizá-la ainda mais, porque sabia que podia confiar nela. Acrescentou que "quem mente por uma coisa tão pequena, pode esconder coisas muito mais sérias".

Ele era do tipo de pessoa que chamava a atenção, se preciso fosse, mas sempre estendia a mão e apoiava as pessoas nos momentos mais difíceis, ponderando sobre o que havia de bom e mostrando novos caminhos. Seus amigos o tinham como um exemplo de lealdade, e falam dele recordando-se de sua tranquilidade e de seu sorriso cativante.

De uma educação exemplar, tinha profundo respeito pelos idosos e, quando faleceu, estava em meio a um inventário dos bens deixados pelos tios, visando garantir os direitos de seu pai. Como irmão, foi um grande companheiro. Ele era como um anjo com o qual sempre se podia contar. Como marido, foi um porto seguro para Reijane durante os 24 anos de casamento. Muito apoiador, era quem lhe dava forças, quem mais acreditava nela e queria muito vê-la feliz. Seu maior sonho era ter uma situação financeira melhor para propiciar mais conforto a ela e também para sua própria mãe. Queria ter muito dinheiro para pagar cursos no exterior para ela e vê-la realizada. Nunca pensou muito em si e queria apenas ter uma vida tranquila.

Em suas horas livres, gostava de estar com a família, receber amigos ou sair com eles, conversar, pescar, ver vídeos engraçados e ajudar as pessoas. Entendia de carros como ninguém. Bom de prato, não dispensava o churrasco, a picanha com alho, arroz com camarão, pizza e galinha com pequi.

Muito amoroso, amava os animais, principalmente Dobby, o cachorro da família, um bichinho idoso e ranzinza que só o Paulinho conseguia cuidar. Eram parceiros inseparáveis.

Para Reijane, “não há como mensurar o tamanho da perda, pois o Paulinho era uma pessoa sem igual, de um coração que não cabia no peito”. Ela declara, ainda: “É difícil pensar a vida sem alguém que fará muita falta nesse mundo caótico que vivemos”.

Paulo nasceu Brasília (DF) e faleceu Brasília (DF), aos 44 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela esposa de Paulo, Reijane da Silva Lopes Araujo. Este tributo foi apurado por Rayane Urani, editado por Vera Dias, revisado por Benedita Sipriano e moderado por Rayane Urani em 14 de julho de 2021.