Sobre o Inumeráveis

Raimundo Araújo Franco

1950 - 2020

Um fã de Belchior, que amava música brega e vivia dedilhando notas desencontradas em seu violão.

Seu Raimundo era uma pessoa querida pelos familiares e amigos. Amante da música brega e tocador de viola, ficava horas e horas nos deliciando com seus dedilhados. Foi um pai amoroso, cheio de virtudes, entre elas a perseverança e a luta diária para que não faltasse o básico aos seus.

Era um homem apegado à família. Vivia contando lembranças boas da infância que, apesar de ter sido pobre em dinheiro, foi rica em amor. Passava longas horas conversando com os irmãos que amava demais, e relembrando as peripécias de quando todos eram meninos.

Seu Raimundo tinha muito medo do vírus. Praticamente não saía de casa; foi só por duas vezes ao banco, na garupa da moto de um dos gêmeos; mas usava a máscara direitinho e tomava todos os cuidados; gostava muito de viver. Mesmo assim, adoeceu.

Casou-se três vezes. Com a terceira e última esposa, Luciene, acabou sossegando. Viveram juntos por 27 anos e tiveram três filhos: os gêmeos, Renan e Adriano, mais Henrique — que não é gêmeo de ninguém — mas que deu aos pais uma neta, uma linda menina chamada Helena, que na mitologia grega era filha de Zeus.

Dos tempos em que teve um bar em Diadema, um município da região metropolitana de São Paulo, Raimundo guardou como relíquia uma coleção de discos de vinil. "Tinha de tudo ali, desde temas de novela, passando por Queen, Led Zeppelin, Carpenters, Elton John e muitos bregas, que eram os favoritos de meu pai. Mas, o meu preferido era um LP do Belchior, chamado Alucinação", lembra com saudades o filho Henrique.

As lembranças do rapaz, que agora sente tanto a partida do pai, seguem carregadas de gratidão, esse sentimento potente e raro, que só os donos de bons corações são capazes de sentir e de declarar: "Apesar de ele ser uma pessoa mais fechada, era muito amoroso e demonstrava interesse em ter longas conversas sobre as coisas da vida. Talvez eu tenha 'aprendido' com ele a falar bastante sobre a vida."

"Certo dia, estávamos jogando bilhar e coloquei o disco do Belchior para ouvirmos juntos, ele lançou um olhar misto para mim. Seus olhos me diziam que ele não tinha entendido muito bem a minha escolha justamente por aquele disco; mas, também percebi que ficou orgulhoso de mim. Começamos a conversar sobre música e sobre como eu gostava das músicas que ele ouvia — até dos bregas — o papo varou a noite e ficamos até tarde ouvindo seus discos", relembra Henrique.

Como era o filho mais velho de Raimundo e Luciene, Henrique ajudava bastante no bar de Diadema, lugar onde moraram por 19 anos. Depois disso, o pai e a mãe mudaram-se para o Ceará. Henrique ficou em São Paulo, não convivendo mais com os pais como antes. Agora, a dor da saudade bate forte, mas os filhos concentram suas forças nos cuidados com a "mamis", Dona Luciene; pois sabem que a perda do companheiro foi um duro baque para ela.

"PC, como era chamado por seus amigos no período em que era dono de bar, foi diagnosticado com coronavírus e lutou com coragem, como sempre fez. Ficou internado por duas semanas, até que chegou o momento em que perdeu a luta.

Ficam, em nossos corações, as lembranças de seus dedilhados em sua viola."

Raimundo nasceu em Bacabal (MA) e faleceu em Maranguape (CE), aos 69 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo filho de Raimundo, Henrique Simões Costa de Oliveira. Este tributo foi apurado por -, editado por Ana Macarini, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 11 de julho de 2020.