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Rosária Aparecida do Prado Cusin

1951 - 2020

À família dedicou todo seu amor. A Deus, seu dom com as palavras. Seu legado é a fé incessante.

Quando ainda era criança, Rosária Aparecida mudou-se para Jundiaí, cidade a 428 km de sua José Bonifácio natal. Cresceu em uma família grande e era a caçula dos 11 irmãos. Na juventude, conheceu Laercio, seu subordinado na empresa em que trabalhavam, e não demorou muito para o cupido cumprir o seu papel, fazendo com que se apaixonassem.

Casaram-se em 1974 e fizeram a vida na cidade de Itararé, interior de São Paulo, onde ela trabalhou ao lado do marido por 40 anos na empresa de beneficiamento e comércio de cereais, gerando empregos e criando fortes vínculos de amizade com funcionários e parceiros comerciais.

Tiveram três filhos: Regina, Cesar e Renato, além das noras, genro e cinco netos. Embora não tenha concluído o ensino superior, sua escrita e sua oratória se destacavam. "Ela falava muito bem em público e tinha uma facilidade admirável com as palavras", lembra a nora Flávia.

Ela prossegue, e conta que a vó Rô era aquela que, quando segurava os netos bebês em seu colo, eles paravam de chorar no mesmo instante. Alguns deles tramavam travessuras só para ver a vó dar bronca. "Era uma bronca tão amorosa que fazia com que os pequenos ansiassem por ela", diz Flávia.

Como mãe, foi exemplar: compreensiva, porém firme quando precisava. Quando pequenos, os filhos temiam a famosa “conversa no banheiro”, resultado de quando aprontavam alguma traquinagem. Na adolescência, ela fez de sua casa o ponto de encontro dos amigos deles, a quem sempre recebia com alegria. Na vida adulta dos filhos, tornou-se uma grande amiga. “Não sei o que seria de mim sem você”, disse ela ao despedir-se da filha Regina; “Seja feliz”, disse ao filho Cesar; e com um “Deus te abençoe” despediu-se de Renato.

Também era uma sogra muito acolhedora, chamava as noras de “fiinhas” e "nunca foi daquelas mães possessivas". Construiu um casamento muito feliz e inspirador. "Ela e Laercio eram discretos, mas acima de tudo amigos, cúmplices e companheiros. Viveram ótimos momentos juntos e, de mãos dadas, também algumas fases amargas da vida", conta Flávia, que prossegue: "Podíamos até vê-la um tanto abatida, mas nunca a vimos perder a fé. Inclusive, foi em sua religiosidade que dona Rosária descobriu seu maior talento: servir a Deus".

Participou da Renovação Carismática Católica, ainda nos primeiros anos do movimento em Itararé. Em 1993 criou o Grupo de Oração do Divino Poder, na comunidade do Divino, que, para sua felicidade, se tornaria paróquia recentemente. "Como pregadora, foi responsável pela conversão de inúmeras pessoas", diz Flávia. Estudiosa de sua religião, atuou como ministra da Eucaristia e da Palavra; participou de programas de rádio levando a palavra de Deus a toda a região e foi palestrante em inúmeros retiros religiosos e cursos de formação de pregadores da Igreja Católica.

"Foi escolhida como madrinha por dezenas de fiéis: era um ícone entre eles! Inclusive, era chamada carinhosamente de 'Hebe Camargo do Divino' pelo padre Misael", comenta Flávia.

Dona Rô tinha estatura mediana e cabelos claros. Era uma mulher elegante, fina e animada. Gostava da família reunida, de ir à missa, de pescaria, dos seus cachorros e de fazer palavras cruzadas.

Era cozinheira de mão cheia, a "mestre cuca" do prato preferido de cada membro da família. Fazia viradinho de feijão, arroz com frango, feijoada, pimentão recheado... "Isso sem contar a salada, que ela temperava de uma maneira tão única que fazia com que até o mais carnívoro dos humanos se rendesse!", diz Flávia, que prossegue: "A sua felicidade era plena quando via todos reunidos em volta da enorme e farta mesa da cozinha".

Flávia diz que ela e os familiares irão se lembrar de Dona Rô "descansando, após o almoço, sob uma brisa refrescante na área de sua casa", e encerra sua homenagem falando diretamente à sogra: "Seu exemplo de fé e resiliência nos perseguirá para sempre".

Dona Rô partiu feliz pela proximidade da chegada do primeiro bisneto, Pietro, que viria ao mundo em setembro de 2020. Ela partiu e, como viveu tão bem acompanhada de seu amado Laercio Cusin, ele também se foi, igualmente vítima do novo coronavírus – e ganhou uma homenagem da nora aqui no Inumeráveis Memorial.

Rosária nasceu em José Bonifácio (SP) e faleceu em Itararé (SP), aos 68 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela nora de Rosária, Flávia Villela Cusin. Este tributo foi apurado por Luciana Fonseca, editado por Luciana Fonseca, revisado por Otacílio Nunes e moderado por Rayane Urani em 8 de setembro de 2020.