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Salatiel Soares Filho

1955 - 2020

O anjo da guarda da filha Laisa. O companheiro da filha Tati. O pai amigo.

Esta é uma carta aberta de Laisa Helena para o seu pai, Salatiel:

Talvez as pessoas não entendam a nossa ligação. Independente do que passamos, você tem um significado imenso na minha vida.

Papitinho, tive uma infância incrível ao seu lado - não precisávamos de muito para ser felizes. Naquela época, se deixassem, eu teria ido todos os dias para o trabalho com você, ficaria sentada naquele motor do ônibus por horas, sem nem me importar em acordar às 4h da manhã. Tudo isso só para ficar perto de você. Não é à toa que eu era chamada de peidinho do Tiele (risos).

Lembro quando pegávamos uma bicicleta e rodávamos os bairros - eu nem ligava se já estava dolorida de ficar sentada no quadro da bicicleta. Quando chegávamos em casa, começava nossa demonstração de amor, que era através de uma briga de lutinha (até você pedir arrego pra minha mãe!). Vivíamos no nosso mundo singular. E foi incrível.

E aí, coisas da vida nos afastaram. A Tati, minha irmã, sabia o quanto eu sentia sua falta. Ela também sentia. Em nossa última conversa, falamos sobre a relação com o senhor - o papo durou horas. Choramos juntas e tentamos nos reconfortar. Quando ela partiu, sei que você sentiu que poderia ter estado mais próximo de nós.

Lembro-me, como se fosse hoje, do áudio que você me enviou: "Laisa, papai te ama". Foi incrível ouvir aquilo - a Tati até me zombava por eu ter ficado tão boba. Inclusive, tentei colocar esse áudio como toque do meu celular, mas infelizmente não consegui e acabei por perdê-lo.

Nossa reaproximação só aconteceu com a partida de Tati e, mais uma vez, voltamos a viver no nosso mundinho, com encontros no seu ponto de táxi. Aquelas eram as melhores horas. Ali falávamos sobre o cartola e o quanto você era muito ruinzinho (risos). Ali também falávamos do Flamengo, nosso time de coração. Aliás, obrigada por me fazer torcedora do Flamengo. Mas, sem dúvida, o melhor dia desses últimos anos foi você ter ido à minha formatura. Foi incrível olhar, lá de longe, e ver você! Lembro que, ao convidá-lo, você disse que não iria, pois não tinha roupa e blá-blá-blá. Senti muito; afinal, eu não queria saber como você estaria vestido, eu só queria a sua presença... E você me brindou com ela e ainda me deu a satisfação de saber que você amou estar lá comigo!

Papitinho, fico pensando no nosso sofrimento diário: nosso corpo acaba por se abalar quando não externamos as emoções. Você não colocava sua dor para fora, raramente a demonstrava. Lembro-me, no entanto, de uma vez em que você externou todo o seu sofrer: foi quando a Tati estava no hospital e você queria brigar com o motorista de ônibus que fechou seu carro. A dor de pai transformou-o e viram você de um jeito como nunca antes.

Ah, papitinho... Como era bom poder levar um lanchinho para você à noite e vê-lo sempre preocupado em dividir o lanche com os amigos, que se tornaram sua família e que me fazem sentir superacolhida.

Lembro do nosso último encontro, que foi um dos mais longos. Cheguei em casa chateada por você não ter ido me buscar; afinal, essa era uma forma de ficarmos mais perto. A chateação, no entanto, acabou no mesmo instante (risos), pois eu sou mais parecida com você do que imagino (e não é só na aparência).

Não fomos perfeitos, mas vivemos da nossa forma, errando e acertando. Tivemos um amor inexplicável.

Pai, pra ser sincera, está doendo. É uma dor que não sei explicar. Por dentro, é como se eu ainda pudesse ir até seu ponto para vê-lo.

Depois que você foi internado e não te vi mais, sonhei com você. Nesse sonho, você perguntava pela Tati, pois, quando tudo aconteceu com ela, você me falou que queria ter estado mais perto de nós. Agora você está aí com ela. Agora sei que ela não está mais sozinha: vocês estão cuidando um do outro. Não sei por que esses foram os planos de Deus, mas entrego e confio.

Obrigada por ter sido meu papitinho, meu paizinho, meu herói (é assim que salvei seu contato no meu telefone). Obrigada por ser esse homem íntegro.

Agora que você está perto da nossa nina, olhe por mim, cuide de nós. Amo você, meu veinho, aquele que de longe eu reconhecia pelo andar...

Salatiel nasceu em Minas Gerais e faleceu no Rio de Janeiro, aos 65 anos, vítima do novo coronavírus.

História revisada por Rayane Urani, a partir do testemunho enviado por filha Laisa Helena, em 20 de maio de 2020.