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Sebastião Alves

1942 - 2020

De servente de pedreiro a advogado, venceu as muitas dificuldades sempre com suas risadas altas e gostosas.

Sebastião, carinhosamente chamado de Duca, deixou um forte legado para a sua família. Foi o quarto dos 17 filhos de Neneu e Luzia. Nascido na velha Jaguaribara, cidade que veio a ser inundada para a construção da Barragem do Castanhão, nutriu em si um espírito resiliente.

Desde muito jovem precisou ajudar nas despesas da sua família: com uma bacia carregada de hortaliças e verduras sobre a cabeça, ia de casa em casa vendendo coentro e cebolinha. A situação econômica difícil agravou-se quando Neneu foi preso. Nesse período, os filhos mais velhos, incluindo Duca, tiveram que prover o sustento de toda a família, uma vez que o seu pai foi liberto apenas 7 anos depois, após os familiares venderem "o único pedacinho de terra" que tinham, para contratar um advogado e provar a sua inocência.

Duca, obstinado e generoso, construiu uma história de perseverança. Na juventude, além das vendas que fazia, trabalhava como auxiliar de pedreiro. Na maioria das vezes, não recebia pagamento, mas ainda assim se empenhava para aprender a profissão. Através desse ofício, contribuiu na construção de locais de grande importância na época, como o Colégio Clóvis Beviláqua e a casa do prefeito, ambos em Jaguaribe, cidade a 40 km de sua Jaguaribara natal.

Com a sua risada alta e gostosa, mesmo diante das durezas da vida, não deixava de lado a emoção. Já adulto, também em Jaguaribe, foi seresteiro. "Ele cantava muito no bar do Eraldo, próximo ao Hotel Glória", conta o filho Tales.

Duca não desperdiçava uma oportunidade de aprendizado. Foi para Fortaleza, hospedou-se na Casa do Estudante e passou a frequentar o Colégio Estadual Liceu do Ceará. Logo estava trabalhando na equipe de serviços gerais do Banco de Desenvolvimento do Ceará. Tamanha era a sua força e determinação, que conquistou uma bolsa de estudos no curso de Direito, na Universidade de Fortaleza. Assim, em 1981, aos 39 anos, Duca deixou de ser servente de pedreiro para integrar a equipe de advogados do mesmo banco e passar a ser chamado de Doutor Sebastião.

O título em nada o alterou. Seguiu sendo uma pessoa de coração abundante, que desejava oferecer fartura a todos que o acompanhavam. Lutou para garantir o melhor estudo possível aos seus dois filhos. Ajudou também irmãos e sobrinhos. Através do exemplo, ao lado da mãe de seus filhos, fez da humildade a marca registrada da sua família. "Meu pai era, é e sempre será a minha referência, o meu herói", diz Tales. O que Duca construiu segue bem sólido, para sempre, na vida e nas lembranças dos seus.

Sebastião nasceu em Jaguaribara (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 78 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pelo filho de Sebastião, Tales Sousa Alves. Este tributo foi apurado por Viviane França, editado por Luciana Fonseca, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 11 de julho de 2020.