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Selma Silva de Souza

1951 - 2020

Vivia sonhando com as viagens e viajando nos sonhos.

Selma era costureira por profissão. Costureiras são artistas natas, transformam pedaços de tecido, fitas, botões, passamanarias e sianinhas em peças únicas, tendo em suas mãos apenas linha e agulha. E, como dizia Guimarães Rosa, o grande poeta sertanejo, “A vida é um eterno rasgar-se e remendar-se.

Ainda que nos últimos tempos, Selma fizesse apenas pequenos reparos e costuras simples, tudo era sempre feito com extremo capricho; era comum ela nem sequer cobrar por seu trabalho. Dona de um coração alegre e solidário, quando começou a pandemia, passou a coser máscaras para doar, ao invés de vender.

Seu lema, o mantra de sua vida era “Bola pra frente!”, não se abatia com facilidade, por maior que fosse a prova. E se alguém estivesse em dificuldades, Selma era aquela que tinha os braços abertos para acolher e palavras positivas de encorajamento para animar e aliviar a dor.

Nunca desperdiçou uma única oportunidade de estar junto de seus familiares e amigos. Amava a vida e sua alegria era contagiante. Jamais mediu esforços para ajudar os necessitados. Seu amor maternal se estendia pelo mundo, era acolhedora e não se limitava a preocupar-se apenas com o bem-estar das pessoas; arregaçava as mangas, ia lá e resolvia. Não importava qual fosse o tamanho da dificuldade!

Fazia questão de ser presente, de estar presente. Sentia falta das pessoas de verdade e fazia questão de demonstrar. Tanto que era muito comum telefonar para seus entes e amigos queridos, apenas para saber se estavam bem, ou se precisavam de alguma coisa. Selma era dessas pessoas que faz ligações em vez de apenas mandar mensagens; uma verdadeira raridade hoje em dia.

“Sempre dava o seu melhor, dedicava amor em tudo que fazia, a sua culinária então, era impecável. Infelizmente ela adoeceu no pico mais alto do contágio, e precisou ser internada, o que nos deixou desesperados e tristes, pois foi uma pessoa que sempre cuidou de todos, e quando mais precisou não pôde ser cuidada, não pôde ser vista e nem ao menos se despedir. Sua falta dói muito, é impossível lembrar e não chorar, ficou um vazio imensurável, que será preenchido com saudade, boas lembranças e o conforto dado por Deus!”, conta a sobrinha Luciana, representando os sentimentos de todos os familiares e amigos que estão com o coração apertado de saudades.

Luciana lembra de uma característica muito marcante em sua amada tia Selma: a paixão por viajar, e descreve: “Era muito alto-astral, amava viajar e sempre queria que todos fossem. Eu mesma fui várias vezes, porque não conseguia dizer não a ela. Quando surgia uma oportunidade para viajar, ela já se animava e ficava ligando para os familiares e amigos, várias vezes ao dia, insistindo até a pessoa aceitar ir junto com ela. Ficava superansiosa. Em uma dessas viagens, meu tio, seu marido, disse que ela ficava falando à noite sobre a viagem, sonhando, falando do pagamento... Depois que a viagem acontecia, quem disse que ela parava de ligar pra gente? Continuava ligando para todos para falar dos melhores momentos, dos perrengues, dos passeios e da próxima viagem.”

Essa mulher encantadora, que irradiava alegria e energias positivas, deixa para aqueles que tiveram a honra de conhecê-la, apenas lições de amor e generosidade. Deve estar agora lá no céu a costurar nuvens fofas com fios de estrelas. E, com certeza, cheia de planos para viajar por esse imenso firmamento, de onde, sem sombra de dúvidas, cuida dos seus com seu amor imensurável de mãe.

Selma nasceu em Fortaleza (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 68 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela sobrinha de Selma, Luciana Mascena Silva. Este tributo foi apurado por Ana Macarini, editado por Ana Macarini, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 4 de agosto de 2020.