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Tiago Julião dos Santos

1984 - 2020

Amoroso, doava-se e fazia o bem como se fosse inevitável.

Foi o presente de 15 anos da mãe, como ela gosta de dizer. E “presente” é uma palavra que descreve bem como Tiago era. Estava sempre ali para ajudar quem precisasse, fosse da família ou não. Desde pequeno, já dava sinais de que nunca deixaria de estar com quem ama. Aos 7 anos, quando os pais se separaram, chorou muito, mas nunca teve mágoas do novo companheiro da mãe, com quem se deu bem a vida inteira.

Quando surgia um problema familiar, era para ele que pediam ajuda. “Vocês acham que eu sou de ferro?”, brincava. E a família, que já era grande, só cresceu. Registrou a filha da companheira em seu nome e depois, juntos, tiveram mais duas meninas. Em casa, fazia as tarefas domésticas e quando descansava, era acompanhado por sua parceira canina, que se deitava ao lado de sua rede.

De segunda a sexta trabalhava duro no almoxarifado da Universidade de Fortaleza, e usava sua posição para fazer o bem aos desconhecidos que tanto lhe agradeciam depois. Muitas vezes chegou a conceder seu próprio desconto de funcionário para quem não tinha condição de pagar pelos exames e consultas médicas. Aos finais de semana, jogava pelos seus dois times de futebol, o Leãozinho e o Leão do Norte, herdado do avô. E no meio da correria de domingo, mesmo organizando as coisas para o jogo, sempre tinha tempo para atender às ligações da mãe.

Aos moradores de rua de Fortaleza, levava sanduíches, roupas e o que mais tivesse arrecadado para doar. Certa vez, numa das entregas de doações, um homem descalço perguntou se havia algum sapato que pudesse pegar. Tiago não pensou duas vezes antes de tirar seu próprio par de chinelos e entregá-lo.

Mas como todos, Tiago também tinha suas tristezas. A relação com uma das filhas era muito complicada e isso causava grande sofrimento. Na Igreja, buscou forças para se reconciliar com ela e lá encontrou o perdão. Fez amizade com todos, até com o pastor.

E, cercado de amigos, ia até para a casa da mãe passar o fim de ano, onde era um exemplo para os irmãos que nem ousavam brigar enquanto ele estava lá. Nas idas ao supermercado, comprava de tudo e a mãe até brincava dizendo que ninguém mais ia comer comida de tanta coisa gostosa que tinha. Bia diz que, mesmo sempre quieto, o irmão era muito amável e que se sentia responsável por todos.

Tiago doou-se tanto que a irmã diz que ele acabava esquecendo de cuidar de si. Mas mesmo com suas feridas, todos se lembram de como ele era capaz de sorrir. Um homem que protegeu, perdoou, amou, jogou bola, fez a mãe sorrir, foi um paizão para os irmãos e amigos e partiu.

Deixou no peito, de todos que conheceu, uma falta imensa e barulhenta como a carreata que o acompanhou até o enterro. Sem os ritos de um funeral, mas recebendo o afeto e reconhecimento de muitos.

Tiago nasceu em Fortaleza (CE) e faleceu em Fortaleza (CE), aos 35 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pela mãe de Tiago, Adriana Maria de Oliveira Julião. Este texto foi apurado e escrito por Jornalista Julia Camim, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 29 de julho de 2020.