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Zilma Berriel de Toledo Piza Terra

1938 - 2020

"Eu posso o que eu quiser", era seu lema; e suas marcas eram o batom vermelho e muito rímel.

Depoimento da sobrinha Renata:

"Tia Zilma tinha presença marcante. Onde quer que estivesse, usava batom vermelho-vivo, forte, além de muito, mas muito mesmo, rímel nos cílios. Era como se usasse a maquiagem para cancelar a deficiência física de uma de suas pernas, e dissesse para o mundo: 'eu posso o que eu quiser'.

Rebelde, segundo as histórias de família, devia deixar seus irmãos e meus avós de cabelo em pé: em sua juventude, na roça, andava a cavalo por todo canto, tirava satisfação, colocava o dedo na cara dos outros se preciso fosse, e até namorou o padre. Fumou muito durante quase toda a vida, como as mulheres de sua geração aprenderam 'ser bonito' no cinema.

Adorava seresta; por alguns anos teve uma pizzaria e trabalhava nela até altas horas, feliz em festejar a vida ao som de música. Fazia aniversário junto com meu pai, e minha irmã, três leoninos majestosos, garantindo festa todo dia 15 de agosto.

Quando me encontrava nas reuniões de família, tia Zilma falava alto e abria ainda mais o sorriso vermelho, dando em mim um tapa, com força e carinho, para agarrar-me uma das mãos e perguntar sobre a novidade da vez: "Eu vi você na internet, correndo/subindo montanha/na cachoeira/na praia/no teatro/viajando/dançando, você é danada! Adoro, me conta!" Eu ficava meio sem jeito, mas o brilho dos seus olhos e o sorriso franco demonstravam sua generosidade, fazendo da alegria do outro, sua própria alegria.

Tinha pela filha única um amor extremado, a ponto de banhá-la, quando bebê, com água mineral. Talvez para testar sua ousadia, a vida apresentou à Tia Zilma alguns desafios: ela enviuvou cedo e precisou criar a filha sozinha.

Seus dias se tornaram muito mais encantados com a chegada do neto Eduardo, 'os quindins de pele e olhos negros como chocolate e jabuticaba'. Gostava de jogar forca e dominó com ele.

Com a idade, as dores físicas se intensificaram e, por vezes, nublavam sua disposição, fazendo com que preferisse ficar em casa. Mesmo recolhida, Tia Zilma pegou Covid-19. Depois de muitos dias de batalha pela vida, chegou a testar negativo. Pensou que havia ganhado mais essa batalha, e repetiu seu lema: 'Eu posso o que eu quiser!'

Porém, seu corpo, cansado do combate, resolveu descansar. Tia Zilma não consta nas estatísticas de vítimas da pandemia, mas sua vida foi abreviada por causa dela.

Comecei a explicar para Eduardo: 'Sua avó mudou de estado, como água e gelo'. Edu, de 8 anos, respondeu que o cachorro dele tinha virado estrelinha no céu. A vó também, uma estrela vermelha, brilhante!

Ficam com a gente o riso alto, o sorriso grande e a gratidão pela inspiração e liberdade para sermos quem somos."

Zilma nasceu em Itaocara (RJ) e faleceu em Niterói (RJ), aos 82 anos, vítima do novo coronavírus.

Testemunho enviado pela sobrinha de Zilma, Renata Nacif de Toledo Piza. Este tributo foi apurado por Michelly Lelis, editado por Lúcia Bettencourt, revisado por Lígia Franzin e moderado por Rayane Urani em 14 de julho de 2020.