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Aldevan Baniwa

1974 - 2020

Sabia enxergar os cogumelos luminescentes da floresta.

O indígena Aldevan Baniwa tinha a sabedoria milenar de quem nasceu na floresta. E uma inteligência e uma presença de espírito só suas. Descobriu espécies de cogumelos luminescentes, escreveu um livro a respeito e ainda deu uma aula para os cientistas que foram visitá-lo. Quando caminhavam na mata escura, Aldevan sugeriu que os estudiosos desligassem as lanternas e, nesse momento, a paisagem ficou repleta de cogumelos luminosos. Um dos cientistas, perplexo, lhe perguntou:

- já andei por muitas florestas, por que nunca consegui ver isso?
- Porque nunca apagou a laterna. Às vezes, pra ver, é preciso desiluminar.

Seu conselho virou um bordão, repetido por muitos. E não foi só essa sabedoria que Aldevan espalhou por aí. Era um especilista em dengue e malária, trabalhando por muito tempo na Fundação Vigilância em Saúde. Poliglota, falava português, inglês, arranhava espanhol e arrasava no nheengatu, que um dia foi a língua indígena mais falada no Brasil.

Teve duas filhas, fazia um belo tambaqui na brasa e sempre tinha energia para tudo. Tanto que, já sofrendo os sintomas do coronavírus, ainda teve ânimo para denunciar nas redes o descaso das autoridades com a pandemia.

No último final de semana antes de sua morte, colheu cogumelos. Que cada um deles ilumine a floresta eterna onde agora vive Aldevan.

Aldevan nasceu na Ilha Oscarina (AM) e faleceu em Manaus (AM), aos 46 anos, vítima do novo coronavírus.

Tributo escrito a partir de testemunho concedido pelo amigo de Aldevan, José Ribamar Bessa Freire. Este texto foi apurado e escrito por Giovana Madalosso, revisado por voluntário e moderado por Rayane Urani em 16 de junho de 2020.